53 anos após a reintrodução do tucano-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, a espécie recuperou grande parte das interações ecológicas responsáveis pela dispersão de sementes e pela regeneração da Mata Atlântica
Por: Mariana Silva Ferreira
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Quando pensamos em restaurar uma floresta, normalmente imaginamos o plantio de mudas. No entanto, uma floresta saudável depende também das relações entre os organismos que vivem nela. A dispersão de sementes por animais, a polinização e a predação são exemplos de interações ecológicas que ajudam a biodiversidade e permitem que esses ambientes continuem se renovando ao longo do tempo. Nos últimos séculos, muitas florestas tropicais perderam parte de seus animais, principalmente por causa da caça, da destruição dos habitats e do crescimento das cidades. Esse processo é conhecido como defaunação. Mesmo quando as árvores permanecem de pé, a ausência de determinados animais pode comprometer processos fundamentais para o funcionamento das florestas.
Entre os grupos mais afetados estão as aves e os mamíferos de médio e grande porte, capazes de consumir frutos grandes e transportar sementes para diferentes lugares. Sem esses animais, muitas plantas têm mais dificuldade para espalhar suas sementes e produzir novas gerações. Com o tempo, isso pode comprometer a regeneração da floresta e até mesmo sua capacidade de armazenar carbono. Foi nesse contexto que a pesquisadora Flávia Zagury e seus colaboradores desenvolveram um estudo publicado em 2026 na revista científica Oikos. Os autores investigaram um dos mais antigos programas brasileiros de reintrodução de fauna: o retorno do tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) (Fig. 1) ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. A reintrodução de fauna consiste em devolver animais a regiões onde viviam naturalmente, mas das quais desapareceram. O tucano havia desaparecido da região na década de 1960 e foi reintroduzido no início da década de 1970, naquela que foi a primeira iniciativa de reintrodução de fauna realizada no parque. Apesar da importância dessa ação, ainda não havia sido avaliado, a longo prazo, se essas aves realmente haviam voltado a desempenhar seu papel na floresta.

Figura 1. O tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) no Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
Mas como descobrir se um tucano voltou a cumprir sua função na natureza? Em vez de apenas contar quantos tucanos existem atualmente, os pesquisadores investigaram com quais plantas essas aves voltaram a interagir. Para isso, reuniram informações publicadas ao longo de décadas sobre a alimentação dos tucanos em diferentes regiões do Brasil. Com base nesses registros, identificaram quais plantas nativas presentes na Floresta da Tijuca poderiam fazer parte da dieta da espécie. Depois, entre abril de 2022 e abril de 2023, os pesquisadores passaram cerca de 520 horas em campo, acompanhando os tucanos e registrando quais frutos consumiam (Fig. 2). A equipe também incorporou registros anteriores de alimentação dos tucanos no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, conectado ao Parque Nacional da Tijuca por áreas de floresta.
Além de registrar as plantas consumidas, os pesquisadores classificaram suas sementes em três categorias de tamanho: pequenas, médias e grandes. Essa informação é importante porque nem todas as aves conseguem engolir frutos e transportar sementes de todos os tamanhos. Plantas que produzem sementes grandes, por exemplo, podem depender de animais capazes de consumir seus frutos e levar suas sementes para outros locais. Quando esses animais desaparecem, as sementes podem deixar de alcançar novas áreas da floresta, dificultando o crescimento de novas plantas.

Figura 2. Pesquisadora em campo.
Os resultados mostraram que os tucanos já haviam recuperado grande parte das interações esperadas com as plantas nativas da região. Os pesquisadores identificaram 101 possíveis interações entre tucanos e plantas da Floresta da Tijuca. Desse total, 77 foram registradas, o equivalente a aproximadamente 76% (Fig. 3a). Em outras palavras, mais de sete em cada dez interações consideradas possíveis no estudo já haviam sido observadas.
A recuperação foi especialmente elevada entre as plantas que produzem sementes médias e grandes. Entre as plantas com sementes pequenas, cerca de 63% das interações esperadas foram registradas. Já entre as plantas com sementes médias e grandes, os valores chegaram a aproximadamente 89% e 88%, respectivamente (Fig. 3b). Esse resultado é importante porque plantas com sementes maiores podem depender de um número menor de animais para espalhá-las. Quando esses dispersores desaparecem, a regeneração dessas plantas pode se tornar mais difícil, comprometendo sua permanência na floresta.
O estudo também registrou tucanos consumindo frutos de espécies importantes para a conservação da Mata Atlântica, como a bicuíba (Virola bicuhyba), ameaçada de extinção, e o palmito-juçara (Euterpe edulis), uma espécie fundamental para diversas relações ecológicas da floresta (Fig. 4). Ao consumir seus frutos, os tucanos podem contribuir para o transporte das sementes dessas plantas, ajudando a espalhá-las por diferentes áreas. Assim, a presença dessas aves pode beneficiar espécies vegetais que dependem de animais para se reproduzir e se dispersar.

Figura 3. Curva de rarefação-extrapolação mostrando a riqueza (ou número) de interações com o aumento do esforço amostral (número de semanas em campo). (a) Conjunto de dados completo. (b) Conjunto de dados para cada categoria de tamanho de semente (pequenas: < 6 mm, médias: > 6 mm e ≤ 12 mm, e grandes: > 12 mm). Linhas contínuas representam dados interpolados, enquanto linhas tracejadas indicam estimativas extrapoladas. Imagem traduzida com uso do ChatGPT a partir da imagem original presente em Zagury et al. (2026).

Figura 4. Espécies mais consumidas pelo tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro. (a) o palmito-juçara Euterpe edulis, (b) a canela-fogo Nectandra membranacea, (c) a bicuíba Virola bicuhyba, (d) o cedro-canjerana Cabralea canjerana, (e) o arco-de-pipa Erythroxylum pulchrum.
Flávia e seus colaboradores destacam que o sucesso de uma reintrodução de fauna não deve ser avaliado apenas pelo número de animais que permanecem em uma região. Uma população pode sobreviver e se reproduzir sem necessariamente recuperar todas as interações que mantinha com outras espécies. Neste estudo, a análise das relações entre tucanos e plantas permitiu investigar se essas aves haviam retomado uma função importante para a floresta: ajudar a espalhar sementes. Esse tipo de avaliação ainda é pouco comum, pois muitos programas de reintrodução acompanham principalmente a sobrevivência e a reprodução dos animais, sem verificar se as relações ecológicas também estão sendo recuperadas.
Os resultados também reforçam a importância do tempo para avaliar os efeitos de uma reintrodução. Estudos anteriores realizados após outras reintroduções na própria Floresta da Tijuca registraram a recuperação de cerca de um quarto a um terço das interações esperadas. No caso dos tucanos, após 53 anos desde o início da reintrodução, a maior parte das interações potenciais consideradas no estudo já havia sido registrada. Embora diferentes fatores possam influenciar essa recuperação, os resultados reforçam a necessidade de acompanhar as ações de conservação por muitos anos para compreender seus efeitos a longo prazo.
Este estudo tem implicações importantes para a restauração e a conservação de florestas, pois mostra que recuperar um ecossistema envolve muito mais do que plantar árvores ou trazer espécies ameaçadas de volta à natureza. Também é necessário recuperar as relações entre os organismos que ajudam a manter esses ambientes funcionando. Ao mostrar que os tucanos voltaram a interagir com grande parte das plantas consideradas no estudo, os pesquisadores demonstram como a reintrodução de animais pode contribuir para recuperar processos ecológicos importantes para a biodiversidade e a regeneração das florestas. Mais do que contar animais e árvores, conservar a natureza também significa permitir que as espécies voltem a desempenhar suas funções e a manter as relações das quais os ecossistemas dependem.
Conteúdo: Mariana Silva Ferreira
Revisão: Priscila Couto e Juliana Ciccheto
Revisão final: Fernanda Souza
Editora desta edição: Daiana Reis
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Leia o artigo na íntegra:
Successful frugivory interactions recovery 53 years after the reintroduction of the ariel toucan Ramphastos ariel in the Atlantic forest
Sobre a autora: Flávia Zagury é bióloga, mestre em Ecologia e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE-UFRJ), onde desenvolve suas pesquisas no Laboratório de Ecologia Vegetal (LEV). Sua trajetória científica é voltada ao estudo das interações ecológicas, com ênfase na dispersão de sementes por aves e no papel da fauna na regeneração das florestas. Atualmente, sua pesquisa de doutorado investiga as complexas relações ecológicas entre a palmeira-juçara (Euterpe edulis), os macacos-prego e as aves dispersoras de sementes, explorando como interações de mutualismo e antagonismo influenciam a dinâmica e a conservação da Mata Atlântica. Atualmente, é também bióloga associada do Refauna, organização dedicada à reintrodução de espécies localmente extintas e à restauração de processos ecológicos na Mata Atlântica.





