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Um estudo de 2019 já previa: serviços ecossistêmicos podem impulsionar a economia brasileira, mas isso depende de ações imediatas de restauração. 


Por: Hieza Schleweis


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No cenário pós-COP30, o Brasil busca acelerar o cumprimento de suas metas climáticas e avança na implementação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG), que foi revisado para internalizar os desafios e oportunidades atuais, desenvolvendo estratégias transversais: o PLANAVEG 2025-2028 (Fig. 1). Nesse contexto, destaca-se um estudo publicado em 2019 e liderado pela Dra. Mercedes Bustamante, um documento estratégico que discute os principais desafios da restauração de ecossistemas no âmbito da proteção da biodiversidade e da mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Esses desafios devem ser considerados para recuperar milhões de hectares degradados. A pesquisa demonstra que a restauração ecológica em larga escala é uma das ferramentas mais viáveis e eficazes para contribuir com o sequestro de carbono (processo pelo qual a vegetação retira dióxido de carbono (CO₂)) e para enfrentar a crise climática. Além de fortalecer a segurança hídrica e restabelecer outros serviços ecossistêmicos, como a regulação do clima, a proteção do solo, a polinização e a manutenção da qualidade da água, benefícios naturais que sustentam atividades econômicas e o bem-estar humano.


Figura 1. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG) estabelece diretrizes e metas para restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2028, transformando áreas degradadas em paisagens produtivas e ambientalmente resilientes, ou seja, ecossistemas capazes de resistir a impactos ambientais e de recuperar suas funções ao longo do tempo. A iniciativa busca ampliar a recuperação de ecossistemas e fortalecer o papel do Brasil como líder global em soluções baseadas na natureza. Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).


O artigo intitulado “Restauração ecológica como uma estratégia para mitigação e adaptação às mudanças climáticas: lições e desafios do Brasil” (do inglês: Ecological restoration as a strategy for mitigating and adapting to climate change: lessons and challenges from Brazil), analisou como a recuperação de ecossistemas nativos poderia posicionar o Brasil como protagonista no cumprimento do Acordo de Paris, um tratado climático global adotado em 2015, no qual países se comprometeram a reduzir emissões de gases de efeito estufa, como o CO₂, e limitar o aquecimento do planeta. Mesmo escrito há sete anos, o estudo já apontava que essa liderança brasileira poderia ir além do combate ao desmatamento. Os autores destacam uma das metas ambiciosas deste acordo, alinhada aos compromissos climáticos do país: restaurar 12 milhões de hectares de florestas, ampliando a captura de carbono, recuperando ecossistemas degradados e fortalecendo a adaptação às mudanças climáticas.

Na prática, a restauração ecológica consiste no conjunto de ações destinadas a auxiliar na recuperação de ecossistemas degradados, com o objetivo de restabelecer sua estrutura, funcionamento e biodiversidade (Fig. 2). Para alcançar esse resultado, diferentes estratégias podem ser empregadas. Entre elas estão o plantio de mudas, que envolve a introdução de espécies nativas produzidas em viveiros; a semeadura direta, técnica em que sementes de plantas nativas são lançadas no solo para iniciar a regeneração da vegetação; e a regeneração natural, processo no qual a área degradada é protegida e a degradação é interrompida, permitindo que o ecossistema se recupere gradualmente por seus próprios processos naturais. O estudo liderado por Mercedes Bustamante destaca que a escolha entre esses métodos deve ser feita de forma criteriosa. A estratégia mais adequada depende, principalmente, do grau de degradação da área, das condições climáticas regionais e da disponibilidade de espécies nativas capazes de restabelecer o funcionamento do ecossistema.


Figura 2. Roda da Recuperação Ecológica, ferramenta utilizada para visualizar o progresso da restauração por meio da comparação entre os atributos do ecossistema em recuperação e os esperados em um modelo de referência, isto é, um ecossistema considerado saudável ou pouco degradado, utilizado como parâmetro de comparação. Cada segmento do gráfico representa atributos ecológicos, como a biodiversidade, a estrutura da vegetação e o funcionamento do ecossistema. A primeira roda mostra a linha de base do projeto, que corresponde à condição inicial da área avaliada no início da restauração. A segunda roda representa a situação de um projeto após 10 anos de restauração, indicando o avanço na recuperação dos diferentes atributos ecológicos. Fonte: GANN, G. D. et al., 2019. Tradução: Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), 2019. 


Além dos benefícios ambientais diretos, a restauração ecológica também pode gerar impactos relevantes na economia. Um dos principais exemplos é a geração de empregos, já que a recuperação de ecossistemas cria uma nova cadeia produtiva. Essa cadeia envolve diversas etapas, como a coleta de sementes de espécies nativas, a produção de mudas em viveiros, o plantio e a manutenção da vegetação, além do monitoramento e da gestão das áreas restauradas ao longo do tempo. Em termos fiscais, o estudo aponta que esse conjunto de atividades pode movimentar grandes volumes de recursos e gerar bilhões de dólares em arrecadação de impostos. No entanto, o sucesso dessa estratégia depende da integração entre políticas públicas, financiamento e participação do setor privado.

O trabalho também chama atenção para um risco comum em iniciativas de restauração: o chamado aflorestamento (afforestation, em inglês), que ocorre quando florestas são plantadas em áreas que originalmente não eram florestais. Esse é o caso de partes do Cerrado e do Pampa, biomas que apresentam grandes extensões de campos naturais e de savanas. A introdução de grande quantidade de árvores nesses ambientes pode gerar impactos negativos, como a redução da disponibilidade de água em bacias hidrográficas, que em alguns casos pode chegar a até 40%. Por isso, os autores destacam que projetos de restauração precisam respeitar a identidade ecológica de cada ecossistema, evitando a ideia simplista de que restaurar significa apenas plantar árvores. O planejamento deve ser orientado por dados científicos e considerar múltiplos objetivos, conciliando metas de sequestro de carbono com a preservação do ciclo natural da água.

Mais do que mitigar impactos ambientais e reforçar a segurança hídrica, ações de restauração conduzidas com rigor técnico podem transformar milhões de hectares degradados em áreas produtivas e ambientalmente recuperadas. Em 2019, estimava-se que o Brasil possuía um déficit de cerca de 21 milhões de hectares de florestas e de campos degradados, principalmente em propriedades privadas. Em 2026, déficit ambiental pode ser interpretado como uma oportunidade econômica, capaz de movimentar setores produtivos e gerar empregos enquanto restabelece serviços ecossistêmicos, benefícios naturais fornecidos pelos ecossistemas.

A viabilidade econômica desse tipo de iniciativa já foi observada em outros países. Na Coreia do Sul, por exemplo, o valor monetário dos serviços prestados por florestas restauradas foi estimado em cerca de US$ 92 bilhões, o equivalente a aproximadamente 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Segundo o levantamento, os maiores retornos econômicos estão associados aos benefícios relacionados à água, ao sequestro de carbono e à melhoria da qualidade do ar (Fig. 3).

O Brasil também possui exemplos históricos de sucesso. Um deles é o reflorestamento da Floresta da Tijuca, no século XIX, realizado para recuperar nascentes e garantir o abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro, que havia sido comprometido pela expansão de lavouras de café. Outro exemplo é o reflorestamento realizado na região da Itaipu Binacional, nas margens do reservatório da usina hidrelétrica, com o objetivo de proteger o solo e evitar o acúmulo de sedimentos nos corpos d’água. Esses casos mostram que, quando bem planejada, a restauração ecológica pode gerar benefícios simultâneos para o meio ambiente, a economia e a sociedade.


Figura 3. Estimativa do valor monetário dos serviços ecossistêmicos prestados por florestas restauradas na Coreia do Sul (Korean Forest Service, KFS, 2013). A tabela apresenta os benefícios econômicos associados a diferentes serviços prestados por esses ecossistemas, como regulação e fornecimento de água, sequestro de carbono, purificação do ar, conservação do solo e outros processos naturais que contribuem para o bem-estar humano e para a economia. Esses valores representam uma estimativa do retorno financeiro gerado pela restauração florestal no país. Fonte: Bustamante et al. (2019), adaptado da Tabela 1 do artigo sobre os benefícios monetários dos serviços ecossistêmicos.


Os autores concluem o trabalho apresentando estimativas robustas sobre o potencial econômico da restauração ecológica. Segundo o estudo, o cumprimento da meta brasileira de restaurar 12 milhões de hectares de áreas degradadas poderia gerar cerca de 215 mil novos empregos diretos no setor, além de uma arrecadação estimada em US$ 1,7 bilhão em impostos. Esses números indicam que a restauração ecológica não é apenas uma estratégia ambiental, mas também uma atividade capaz de gerar valor econômico e integrar cadeias produtivas. Diante da urgência da crise climática e dos compromissos assumidos na COP30, o estudo liderado pela Dra. Bustamante permanece atual e pode servir como uma importante referência para orientar iniciativas de restauração em larga escala no Brasil. A principal mensagem é nítida: o enfrentamento das mudanças climáticas e a construção de um futuro mais resiliente passam por políticas e projetos de restauração ecológica bem planejados, capazes de alinhar a recuperação ambiental, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.


Conteúdo: Hieza Schleweis 

Revisão: Isis Gonçalves, Juliana Ciccheto e Priscila Mateus Couto

Revisão final: Mariana Silva Ferreira

Editora desta edição: Daiana Reis e Juliana Ciccheto



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Sobre a autora:

Mercedes Bustamante é Professora Titular da Universidade de Brasília (UnB) e uma das principais autoridades globais em Ecologia de Ecossistemas, com foco no bioma Cerrado, na biogeoquímica e nas mudanças climáticas. Bióloga (UERJ), mestre em Fisiologia Vegetal (UFV) e doutora em Geobotânica (Universität Trier, Alemanha), sua trajetória é marcada pela liderança em painéis internacionais de alto nível, tendo atuado como cocordenadora no IPCC (Relatórios 5 e 6) e como membro do IPBES e do PNUMA. Na gestão pública e científica, presidiu a CAPES em 2023 e ocupou cargos diretivos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). É membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Ciências dos EUA (NAS) e do Climate Crisis Advisory Group. Reconhecida por suas contribuições à ciência e ao meio ambiente, foi laureada com o Prêmio Claudia (2007) e com o Prêmio Verde das Américas (2009).


Espécies nativas do bioma Caatinga demonstram potencial para eliminar larvas, ovos e até indivíduos adultos do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue.


Por: Alice Meira Gomes Dórea


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Um estudo liderado pela pesquisadora Dra. Karine da Silva Carvalho mostrou que diversas plantas da Caatinga possuem compostos naturais capazes de atuar contra diferentes fases do ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti, o mosquito da dengue (Figura 1). A pesquisa identificou que mais de 50 espécies vegetais desse bioma podem matar larvas do mosquito, impedir o desenvolvimento de pupas, reduzir a postura de ovos e até comprometer a sobrevivência de mosquitos adultos. Os resultados reforçam a importância da biodiversidade de plantas da Caatinga como fonte de soluções naturais para o controle do mosquito responsável pela transmissão da dengue e de outras doenças, como zika e chikungunya.


Figura 1. Mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana, é facilmente identificado pelas listras brancas no corpo e nas pernas, além do hábito de picar principalmente durante o dia. Fonte: WikiImages, retirada do Pixabay.


Entre os principais resultados do trabalho da Dra. Karine e colaboradores, está a identificação de plantas da Caatinga cujos óleos essenciais apresentam alto potencial inseticida, apontando alternativas promissoras para o controle do mosquito da dengue. Esses achados se tornam ainda mais relevantes diante da resistência do Aedes aegypti aos inseticidas químicos e agrotóxicos atualmente utilizados, o que tem limitado a eficácia das estratégias convencionais de controle. Nesse contexto, a Caatinga ganha destaque como fonte estratégica de soluções baseadas na natureza. 

Bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga é marcada por longos períodos de seca, altas temperaturas e baixa disponibilidade de água (Figura 2). Embora frequentemente associada a uma paisagem pobre, trata-se de um ambiente com grande diversidade vegetal, ainda pouco explorada do ponto de vista científico. Para sobreviver ao clima semiárido (caracterizado por pouca chuva ao longo do ano e altas temperaturas), as plantas da Caatinga desenvolveram uma série de adaptações, ou seja, características que aumentam suas chances de sobrevivência. Entre essas adaptações destaca-se  a caducidade foliar, que consiste na queda  das folhas durante a seca, reduzindo a perda de água. Outras estratégias incluem folhas menores ou mais espessas, presença de espinhos e alterações na forma das plantas, que ajudam a conservar água e proteger contra herbívoros. Além dessas adaptações visíveis, muitas plantas produzem substâncias químicas de defesa, conhecidas como metabólitos secundários. Esses compostos não participam diretamente do crescimento da planta, mas atuam como proteção contra insetos, microrganismos e condições ambientais extremas. Alguns desses metabólitos, como, por exemplo, óleos essenciais, apresentam efeito inseticida, ou seja, são capazes de matar ou interferir no desenvolvimento de insetos.

É importante destacar, no entanto, que nem toda planta que produz óleo essencial tem ação inseticida. Óleos essenciais são misturas naturais de compostos voláteis responsáveis, por exemplo, pelo aroma das plantas. Apenas alguns deles contêm substâncias que realmente prejudicam o mosquito, e essa eficácia varia conforme a espécie vegetal, a parte da planta utilizada e a concentração do óleo.



Figura 2. Paisagem típica da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro localizado principalmente na região Nordeste do Brasil. É caracterizada por clima semiárido, com longos períodos de seca, altas temperaturas e vegetação adaptada à escassez de água, como plantas com folhas reduzidas ou que perdem as folhas durante a seca. Fonte: gov.br – ICMBio.Disponível em: <https://www.gov.br/icmbio/pt-br/centrais-de-conteudo/parquenacionalmatogrossense-jpg>.


O mosquito Aedes aegypti possui um ciclo de vida dividido em quatro fases, ovo, larva, pupa e adulto (Figura 3), o que facilita sua adaptação e dispersão em diferentes ambientes. As fêmeas transmitem os vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela, responsáveis por graves problemas de saúde pública no Brasil e no mundo. Como ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos para todas essas doenças, o controle do mosquito continua sendo a principal estratégia de prevenção. O problema é que o uso contínuo de inseticidas químicos elimina os mosquitos mais sensíveis, permitindo que os indivíduos naturalmente mais resistentes sobrevivam e se multipliquem, além de causar impactos negativos ao meio ambiente e a outros organismos. Por isso, cresce o interesse por inseticidas de origem vegetal, que tendem a ser menos tóxicos, mais biodegradáveis e potencialmente mais sustentáveis.


Figura 3. Etapas do ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti, que inclui as fases de ovo, larva, pupa e adulto. Em condições favoráveis de temperatura e água, o desenvolvimento do ovo até o mosquito adulto ocorre em cerca de 7 a 10 dias, o que contribui para a rápida proliferação da espécie. Fontes: Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e Centers for Disease Control and Prevention (CDC).


Para investigar o potencial de plantas que possuem compostos naturais capazes de atuar contra o mosquito, Dra. Karine e colaboradores analisaram estudos científicos publicados ao longo de dez anos sobre plantas da Caatinga com ação contra o Aedes aegypti. Eles reuniram informações sobre quais espécies foram testadas, as partes das plantas que foram utilizadas (como folhas, sementes ou cascas) ou óleos essenciais e como estes atuaram sobre o mosquito, além dos compostos químicos que estavam associados ao efeito inseticida. Também foram avaliados os possíveis efeitos tóxicos dessas substâncias em outros organismos, como outros insetos e pequenos animais. 

Os resultados mostraram que a grande diversidade vegetal da Caatinga favorece a descoberta de compostos naturais eficazes principalmente contra as larvas do mosquito. As condições extremas do bioma estimulam a produção de substâncias químicas de defesa, como compostos fenólicos (moléculas com ação antioxidante e tóxica para insetos) e ácidos graxos, que são substâncias presentes em óleos vegetais capazes de interferir no desenvolvimento e na sobrevivência dos insetos. Alguns grupos de plantas se destacaram, como plantas dos gêneros Abarema, Croton, Myracrodruon, Lippia e Syagrus. Espécies bem conhecidas pelas populações locais, como a aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) (Figura 4), o licuri (Syagrus coronata) e diferentes tipos de velame (Croton spp.), apresentaram forte ação contra o Aedes aegypti. Esses achados reforçam o potencial da Caatinga como fonte de soluções naturais e sustentáveis no combate à continuação do ciclo do mosquito, ao mesmo tempo em que destacam a importância da conservação desse bioma único.


Figura 4. Myracrodruon urundeuva, conhecida popularmente como aroeira-do-sertão, espécie nativa da Caatinga amplamente utilizada na medicina tradicional e aqui destacada pelo seu potencial inseticida e presença de óleos essenciais capazes de atuar contra o mosquito Aedes aegypti. Foto: Liliane Lima/NEMA-UNIVASF.


Um aspecto curioso revelado pelo estudo é que a época do ano influencia diretamente a eficácia inseticida dessas plantas. Durante o período chuvoso, quando há maior disponibilidade de alimento para insetos que se alimentam de plantas (os chamados insetos herbívoros), as espécies da Caatinga intensificam a produção de metabólitos secundários. Esse aumento na produção química faz com que os extratos obtidos das plantas durante a estação chuvosa sejam mais tóxicos para as larvas do Aedes aegypti do que aqueles coletados no período seco. Dessa forma, o resultado evidencia como as condições ambientais da Caatinga moldam o potencial inseticida de sua flora ao longo do ano.

Os autores ressaltam ainda que, embora muitos mecanismos de ação dessas substâncias já sejam conhecidos, ainda são necessários estudos mais detalhados para isolar os compostos ativos, ou seja, identificar exatamente quais moléculas são responsáveis pelo efeito inseticida, e para aprofundar as avaliações de seletividade (capacidade de afetar apenas o mosquito) e de toxicidade a longo prazo, especialmente em organismos que não são alvo do controle.

Como perspectiva futura, o estudo aponta que a biodiversidade da Caatinga representa um recurso estratégico para o desenvolvimento de bioinseticidas (produtos naturais que substituem inseticidas sintéticos, reduzem impactos ambientais e diminuem a resistência dos mosquitos). No entanto, os pesquisadores alertam que ainda existem desafios importantes, como a produção em larga escala, a disponibilidade de biomassa vegetal e o desenvolvimento de métodos de extração e processamento que tornem viável o uso comercial desses compostos.

As descobertas abrem caminho para novas pesquisas voltadas ao isolamento, validação e síntese de moléculas bioativas (substâncias naturais capazes de matar ou inibir o desenvolvimento do mosquito), à ampliação dos testes de toxicidade em organismos não-alvo, ou seja, organismos que não são o mosquito) e ao desenvolvimento de formulações seguras para uso em programas de saúde pública. Dessa forma, fortalecer o conhecimento científico sobre as plantas da Caatinga não é apenas uma iniciativa acadêmica, mas um passo essencial para transformar um bioma historicamente negligenciado em protagonista de soluções inovadoras para a saúde global.

Ao revelar o potencial inseticida de uma flora marcada por alto grau de endemismo, isto é, espécies que só existem nesse bioma, o estudo reforça a importância de investir em ciência, conservação e uso sustentável da biodiversidade brasileira. A Caatinga se destaca, assim, como uma fonte estratégica para o desenvolvimento de inseticidas naturais mais eficazes, seguros e ambientalmente responsáveis no enfrentamento das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.



Conteúdo: Alice Dórea

Revisão: Juliana Ciccheto e Rita de Cássia

Revisão final: Fernanda Souza

Editoras desta edição: Juliana Ciccheto e Daiana Pelegrino




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Leia o artigo na íntegra:


Sobre a autora:

Bióloga, mestre em Ciências Ambientais pela UESB e doutora em Ciências pelo Instituto Aggeu Magalhães (FIOCRUZ-PE), com experiência em parasitologia e entomologia, especialmente no estudo de insetos vetores. Desde 2021, atua como docente no Instituto Federal da Paraíba (IFPB), onde leciona na área ambiental, desenvolve pesquisas sobre solos do semiárido e coordena o curso Técnico em Meio Ambiente.


Em paisagens agrícolas contínuas, as pragas podem se espalhar com muito mais facilidade, enquanto o aumento das coberturas florestais funciona como uma barreira natural que freia e reduz a disseminação de pragas.


Por: Juliana Ciccheto


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Vivemos um momento de forte expansão agrícola, aumento de pragas invasoras, espécies que se espalham rapidamente nas áreas de cultivo, encontram poucas dificuldades para se estabelecerem e acabam causando grandes prejuízos à produção, e também de urgência em reduzir o uso de pesticidas e agrotóxicos. Sabemos que as monoculturas, ou seja, grandes áreas agrícolas formadas por apenas uma única espécie de planta, como as plantações de soja, favorecem surtos de pragas e geram perdas nas colheitas. Em contraste, paisagens mais diversas tendem a ser mais resistentes às perturbações no ambiente, como mudanças causadas pelo uso intenso da terra, pelo desmatamento, pelas alterações no clima ou pelo manejo agrícola inadequado, fatores que desequilibram os sistemas naturais. Essa diversidade ambiental pode reduzir os prejuízos na produção e o custo econômico com o controle de pragas. No contexto da segurança alimentar, do desmatamento e da conservação ambiental, é importante compreendermos como as pragas se reproduzem e são transmitidas entre cultivos. Isso nos remete a uma pergunta essencial: “por onde as pragas realmente se deslocam dentro das áreas ou chamadas paisagens agrícolas?” E foi essa questão que motivou a pesquisadora Dra. Débora Rother e colaboradores a desenvolverem uma pesquisa sobre o tema.

O grupo de pesquisa analisou qual  distância a broca-da-cana-de-açúcar, uma pequena mariposa que causa grandes prejuízos em plantações, consegue se deslocar em uma paisagem de cana no interior de São Paulo, em uma região que fica entre dois biomas muito importantes do Brasil: a Mata Atlântica e o Cerrado. A região estudada é típica das áreas canavieiras do país, isto é, apresenta grandes faixas de plantio contínuo (monoculturas) cortadas por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada (Figura 1). Essas áreas de floresta, muitas vezes vistas apenas como restos ou “sobras” da paisagem, revelaram um papel estratégico: elas podem interromper rotas de dispersão da praga, funcionando como barreiras naturais e sustentáveis.



Figura 1. Imagem ilustrativa de sistemas agrícolas de cana-de-açúcar entrecortados por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada. A imagem não retrata a área de estudo; refere-se à área da Usina Nova Canabrava, localizada no Estado do Rio de Janeiro. Fonte: <https://revistarpanews.com.br/cana-de-acucar-no-estado-do-rio-de-janeiro-volta-a-crescer/>.


Usando ferramentas da ciência das redes (as mesmas usadas para entender como informações circulam na internet ou como vírus se espalham entre pessoas), Rother e pesquisadores descobriram que as pragas não se movimentam só de um campo para o outro de forma direta, elas seguem caminhos complexos, com conexões indiretas que só podem ser reveladas quando se analisa a paisagem como um sistema interligado. A mariposa estudada pela pesquisadora brasileira possui  larvas que perfuram o caule da cana-de-açúcar, causando danos que reduzem a produção de açúcar, álcool e biomassa, gerando grandes prejuízos econômicos. O ciclo de vida dessa praga da cana-de-açúcar acontece quase todo dentro da própria planta. Os insetos adultos vivem poucos dias e costumam voar principalmente à noite. Os machos conseguem se deslocar por distâncias de até 800 metros, orientando-se pelo cheiro liberado pelas fêmeas. (Figura 2).



Figura 2. Esquema gráfico do ciclo de vida da praga da broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis (Lepidoptera: Crambidae)). Fonte: Imagem criada pela revisora Maria Elizabeth Barbosa. 


Para a elaboração da sua pesquisa, a Dra. Rother e seus colaboradores construíram armadilhas com feromônios (substâncias químicas secretadas por um organismo que afetam o comportamento ou a fisiologia de indivíduos da mesma espécie) de fêmeas que atraiam os machos, registrando a presença ou ausência de machos em diferentes pontos de coleta. E aqui os pesquisadores partiram de uma hipótese central: áreas de floresta dificultam o deslocamento da praga. Isso porque as florestas abrigam mais inimigos naturais da broca, como formigas e aves, e a praga tende a evitar esses ambientes por risco de predação.

Para validar a hipótese, Rother e colaboradores mapearam toda a cobertura florestal da região com o uso de imagens de satélite. A partir daí, criaram 50 cenários com simulação computacional, variando a quantidade de floresta: de paisagens quase sem floresta a paisagens quase totalmente florestadas (Figura 3).



Figura 3. Cenários que ilustram a complexidade da paisagem variando a cobertura florestal natural e restaurada no nordeste do estado de São Paulo, Brasil. a) Paisagem empírica com 16,7% de cobertura florestal; b) Desmatamento simulado com 6,3% de cobertura florestal; e c) Reflorestamento simulado com 36,8% de cobertura florestal. A cobertura florestal é representada em verde e os pontos de amostragem (locais de armadilhas e nós na rede espacial) em vermelho. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 2. 


Essas simulações representaram cenários de desmatamento extremo e de restauração florestal intensa. Para entender como a praga se move, os pesquisadores transformaram a paisagem em um tipo de rede de caminhos possíveis: cada armadilha virou um ponto da rede (exemplificação na Figura 4). Em um cenário sem floresta, todos os pontos estariam conectados diretamente, como se a praga pudesse voar em linha reta para qualquer lugar (Figura 4, a). Quando havia florestas entre dois pontos, o caminho ficava mais longo, pois a praga teria que “contornar” essas áreas (Figura 4, b). Em alguns casos, áreas cercadas por floresta ficavam completamente isoladas, impedindo a chegada da praga (Figura 4, c). Assim, cada cenário de floresta gerava uma rede diferente, com caminhos mais curtos, mais longos ou até mesmo inexistentes. Para comparar essas redes, os pesquisadores usaram duas ideias simples: distância média entre os pontos, ou seja, quanto maior essa distância, mais difícil é para a praga se espalhar rapidamente; e número de grupos isolados, ou seja, se a paisagem se fragmenta em “ilhas” desconectadas, a praga não consegue alcançar todos os locais. Com essas redes em mãos, os cientistas rodaram simulações computadorizadas para ver como a infestação evoluiria ao longo do tempo. O objetivo era ver: quão rápido a praga se espalhava; quantos pontos acabavam infestados; e se a floresta conseguia atrasar ou até impedir a transmissão.



Figura 4. Diagrama conceitual representando a rede espacial em três paisagens hipotéticas com diferentes níveis de complexidade: a) sem floresta: rede totalmente conectada; b) com cobertura florestal existente: rede conectada, mas com variação na distância original entre os nós; e c) com cobertura florestal aumentada: rede desconectada. No diagrama, foi assumido um nó inicial para a dispersão da mariposa. A espessura do caminho de dispersão da mariposa representa o efeito da distância entre os nós. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 3. 


Os resultados mostram algo muito claro: quanto mais floresta existe na paisagem, mais difícil fica para a praga se espalhar. Quando os pesquisadores aumentaram a quantidade de floresta nos cenários simulados, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: os caminhos entre os pontos de infestação ficaram mais longos e a paisagem começou a se quebrar em áreas isoladas, onde a praga simplesmente não conseguia chegar. E isso não aconteceu de forma gradual ou “linear”. O efeito foi exponencial, ou seja, pouca floresta faz pouca diferença; muita floresta faz uma diferença enorme. No cenário real, com pouca cobertura florestal, a paisagem ainda se comporta como um espaço contínuo, permitindo que a praga se espalhe livremente. À medida que a floresta aumenta, porém, ocorre uma mudança estrutural importante: a paisagem começa a se fragmentar, formando blocos isolados. A partir desse ponto, novos incrementos de floresta passam a ter efeitos cada vez mais fortes, deixando grandes áreas fora do alcance da praga ao longo do tempo.

As simulações indicam que a floresta não apenas retarda a infestação da mairoposa broca, mas pode efetivamente limitá-la. Embora o avanço da praga se torne mais lento, o efeito mais relevante é a redução do número de áreas atingidas. Em paisagens mais florestadas, a infestação deixa de ocorrer de maneira homogênea: enquanto alguns locais são atingidos rapidamente, outros demoram muito mais ou nunca chegam a ser infestados. Isso acontece porque a floresta bloqueia múltiplos caminhos ao mesmo tempo, dificultando a dispersão em várias direções. O estudo também mostra que é possível prever com boa precisão por onde a praga tende a se espalhar, mesmo usando poucas informações sobre a paisagem. 

A pesquisa da Dra. Rother reforça que o controle de pragas não depende apenas do uso de inseticidas ou da introdução de pragas invasoras, mas também da forma como a paisagem é organizada. Paisagens simplificadas, dominadas por monoculturas, funcionam como verdadeiras autoestradas para pragas especializadas, enquanto paisagens mais diversas, com florestas e áreas naturais, se comportam como labirintos que dificultam o avanço e reduzem o alcance das infestações. Isso demonstra que o risco de infestação depende da estrutura completa das conexões na paisagem.


Conteúdo: Juliana Ciccheto

Revisão: Stefany Lopes e Maria Elizabeth Barbosa

Revisão final: Ana Paula Lula

Editora desta edição: Juliana Ciccheto



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Sobre a autora:

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