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O nosso quadro "Sou cientista e essa é a minha pesquisa" tem como intuito divulgar as pesquisas científicas desenvolvidas por mulheres, além de promover a visibilidade dessas mulheres e de suas pesquisas.

Neste quadro produzimos notícias a partir de teses, dissertações e trabalhos publicados e enviados por vocês! Essas notícias são publicadas aqui em nosso site e em outros meios de comunicação.

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Atualizado: 19 de out. de 2025

Como a cobertura florestal e a dispersão de sementes por antas influencia a regeneração florestal?


Ecóloga Eduarda Rita Fialho

Preparado por Tatiana Nepomuceno - Jornalista do Projeto Mulheres na Ecologia

Revisado por Elvira D'Bastiani - Ecóloga do Projeto Mulheres na Ecologia


Foto: Acervo Eduarda Fialho.


Conhecida como o maior mamífero da América do Sul, a Tapirus terrestris (carinhosamente batizada por anta) é considerada por muitos pesquisadores como a “jardineira da floresta”. Isto porque esta espécie é uma das mais importantes dispersoras de sementes (mamíferos) já conhecidas: ao engolir as sementes quase intactas, as sementes passam pelo sistema digestivo e retornam a terra prontas para germinar. Como as antas andam muito e defecam em locais distantes, esta espécie acaba “semeando” as sementes pela mata afora e por isto são conhecidas como as engenheiras florestais mais capacitadas. Desta forma, as antas auxilia e muito na dispersão de plantas e na formação e manutenção das florestas.


Tal importância ecológica despertou o interesse da pesquisadora Eduarda Fialho, mestranda do Programa de Pós-graduação em Ecologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Sempre gostei muito de estudar, de conhecer e pesquisar. Mas não me dei conta durante a graduação do quanto eu gostava da conservação. Confesso que quando passei no mestrado eu não tinha ideia com que eu poderia trabalhar. Mas, conversando com meu orientador (Prof. Lucas Paolucci) chegamos num consenso de que é necessário entender como a cobertura florestal e a dispersão de sementes por antas influenciam na regeneração florestal”, recorda Fialho. “Nosso objetivo será investigar o nível de predação das sementes quando estas estiverem dentro das fezes do animal ou fora delas. Além disso, investigaremos se esta predação é influenciada pela porcentagem de cobertura vegetal do local e os impactos desta cobertura sobre a germinação destas sementes”, explica Eduarda.

A pesquisa será realizada na Fazenda Macedônia, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que pertence à Celulose Nipo-Brasileira S.A (Cenibra), localizada no município de Caratinga, no Vale do Rio Doce. Para a investigação, a cientista Eduarda irá dispor 30 blocos contendo 3 experimentos ao longo de uma área da floresta com diferentes níveis de cobertura vegetal: um com bolo fecal de antas com sementes de girassol (inseridas de forma manual), outro com apenas sementes de girassol livres (sem fezes) e um terceiro com bolo fecal contendo apenas sementes naturais consumidas pelas antas. Isso será realizado para definir os impactos na regeneração florestal e possibilitar planos de manejo para a recuperação de áreas degradadas.


Sabemos que a regeneração em florestas depende dos eventos de pré-dispersão e pós dispersão. As antas são dispersores potenciais devido a grande quantidade e variedade de frutos que consomem, pela longas distâncias que elas caminham, defecando as sementes longe da “planta mãe” (o que diminui a competição, o ataque de predadores e patógenos como fungos, bactérias e protozoários) e muitas vezes estas sementes saem intactas”, afirma Eduarda.

"A grande questão aqui é e depois de defecarem? Estudos apontam que as fezes de vertebrados são mais atrativas aos roedores, aumentando a predação de sementes, mas que a predação de sementes por besouros rola-bosta é menor nas fezes de anta especificamente”, pontua a cientista. São dois grupos muito distintos, mas que exercem forte pressão durante o processo de crescimento das plantas. “Além disso, estudos apontaram que a predação de sementes é maior em florestas degradadas. Espero que a minha pesquisa consiga criar um link entre estes fatos para que desta forma possamos entender melhor como se dá a predação nas fezes de antas em diferentes porcentagens de coberturas florestais, quais as influências internas e externas desta predação e também quais seriam os impactos para a regeneração florestal”, explica Eduarda.


E o que isto afeta a minha vida?


A predação de sementes sendo maior em locais com menor cobertura florestal implica em um menor número de sementes que estarão disponíveis para a germinação; tendo como consequência uma menor regeneração florestal. Estas descobertas são importantes pois ajudam a pensar e elaborar de forma eficiente, por exemplo, planos de manejo. “Planos de manejo são a chave para a conservação e para recuperação de áreas degradadas. Além disto, estas descobertas possibilitam ter conhecimento claro das consequências negativas que o desmatamento e a degradação ambiental podem trazer para as relações ecológicas. A longo prazo, permite que pesquisadores e divulgadores científicos usem estas informações para sensibilizar a sociedade e instigar o pensamento crítico sobre o papel de cada um neste contexto”, aponta Eduarda. “Afinal, as florestas estão sendo severamente degradadas pelas ações antrópicas (interferência do homem), seja de forma direta, por meio do desmatamento objetivando a mineração, pastagem ou agricultura; ou pela forma indireta, no qual as mudanças climáticas vêm causando impactos em grandes escalas, ambas contribuindo para a perda da biodiversidade”, alerta Eduarda.


De acordo com a pesquisadora, florestas conservadas permitem uma maior riqueza de espécies nas quais exercem funções ecossistêmicas importantes para a manutenção da vida como um todo. “Se encontramos relações entre uma maior cobertura vegetal e menor predação implicando em uma maior germinação das sementes, isto impactaria positivamente na conservação da biodiversidade, confirmando mais uma vez a importância de conservar os ecossistemas naturais e os grandes biomas”, pontua a cientista. "Como consequência teríamos um melhoramento na qualidade do ar que respiramos, e também do clima ou, pelo menos, a redução da velocidade das mudanças climáticas a longo prazo”, finaliza Eduarda.


CONTATO DA PESQUISADORA:


Nome completo: Eduarda Rita Fialho

Titulação: mestrado Programa de Pós-graduação em Ecologia da Universidade

Federal de Viçosa (UFV)

Títulos dos projetos: Como a cobertura vegetal e a dispersão de sementes por antas influenciam na regeneração florestal?

Fotos: Acervo pessoal Eduarda Fialho

Endereço do Instagram para marcação: @duda.fialhoo

Atualizado: 19 de out. de 2025

Estudo conduzido nos EUA, por brasileira, apresenta metodologias para mitigar o atropelamento de animais silvestres no nosso país..


Ecóloga: Eleonore Setz

Preparado por Tatiana Nepomuceno - Jornalista do Projeto Mulheres na Ecologia

Revisada por Elvira D'Bastiani - Ecóloga do Projeto Mulheres na Ecologia



Fotos: Acervo pessoal Eleonore Setz.


Uma estimativa parcial realizada pelo Sistema Urubu, indicou que 17 animais morrem nas estradas brasileiras a cada segundo. Diariamente são mais de 1,3 milhões de animais mortes e até 475 milhões de vidas selvagens são perdidas anualmente. O Sudeste e o Sul são as regiões com maior número de registros de atropelamentos. Apesar destes dados serem atuais (2022), já em 1999 a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Eleonore Setz, estava antenada neste problema e quando as pesquisas sobre atropelamentos de animais em rodovias ainda eram incipientes no Brasil; a cientista embarcou rumo a Geórgia (EUA) para conhecer a fauna desse estado e estudar os fatores envolvidos nos atropelamentos de animais silvestres. “Eu já conhecia o estado da Geórgia quando combinei um pós-doc junto à Universidade da Geórgia, em Athens. Contudo não conhecia a fauna deste ambiente temperado e achei que investigar atropelamentos poderia ser uma forma de conhecê-los”, comenta Setz.


“Na época não havia GPS e, neste sentido, não dava para plotar os pontos de ocorrência num Google Earth. Identifiquei mais de 30 espécies, 80% mamíferos (veado e raposa cinzenta, por exemplo), 11% répteis (jabuti, cobra-de-vidro, e várias serpentes) e 9% aves (coruja e muitos passarinhos)”, relembra. “Voltando ao Brasil co-orientei um doutorado sobre atropelamentos em Franca (SP) e Araxá (MG). Nos EUA, cheguei a acompanhar excursões para visitar passagens de fauna, em combinação com os congressos da Conferência Internacional sobre Ecologia e Transportes (Icoet) e pude observar várias alternativas nos Estados Unidos (EUA) para preservar a fauna de atropelamentos”, relembra a pesquisadora.


De acordo com a pesquisadora, nos EUA as soluções variavam entre os Estados federativos. No Arizona, por exemplo, aproveitavam o relevo para fazer viadutos e deixavam um vão livre para passagem da fauna. “O próprio relevo e cercas orientavam a fauna para a passagem e havia também escapes nas cercas, caso o animal entrasse nas faixas de rolamento”, recorda a pesquisadora. “Já nos Everglades, sul da Flórida, as soluções iam desde passagens da fauna sob a estrada (levemente levantada e acompanhadas por cercas condutoras de 3m), até sinalizadores luminosos e sonoros quando animais com colares de rastreamento se aproximavam da estrada”, explica ela. Este conhecimento adquirido permitiu à cientista discutir e ajudar a consolidar propostas que mitiguem os atropelamentos de animais silvestres no Brasil. “Embora hoje em dia já existam especialistas pesquisando especificamente atropelamentos e a eficácia de passagens da fauna no país”, conta a pesquisadora.


Setz afirma que, apesar de existir muita literatura sobre a eficiência dos diversos tipos de prevenção aos atropelamentos, ainda faltam iniciativas e interesse público para evitá-los no nosso país. “As diferenças entre os custos acerca das alternativas para prevenir atropelamentos da fauna silvestre são grandes e ninguém quer investir a menos que sejam obrigados nos projetos de duplicação, como na Rodovia dos Tamoios, no litoral de São Paulo e na estrada para os lagos no Rio de Janeiro, por exemplo” explica a cientista.


Ainda, de acordo com a pesquisadora, quando há algum tipo de intervenção elas são por vezes escassas ou insuficientes. “Em alguns trechos da Rodovia Dutra (SP) há cerquinhas de pífio 0,5m de altura, com cartazes sobre ações contra atropelamentos de fauna pela concessionária. Estas placas dão consciência do que existe por ali, de espécies da fauna, mas não acredito que tenham um papel significativo na prevenção dos atropelamentos. Depois de um tempo o motorista não presta mais atenção. Já registrei atropelamento de lobo-guará na Dutra, muito triste”, ressalta Setz.


Por isto, é preciso mais! Alternativas como passagens de córregos associadas a continuidade das matas de galeria (determinadas pelo código florestal) proporcionariam um avanço incrível na mobilidade da fauna terrestre. Há também vários tipos de passagens para espécies arborícolas que poderiam ser repensadas.

De acordo com Setz, utilizar das atividades da rede hidrográfica e do Código Florestal para cuidar das passagens e corredores de fauna associados aos córregos seria o start inicial “As pontes pré-fabricadas seriam um bom começo, pois permitiria a passagem livre da água, com margens secas para o trânsito e conexão da fauna. A naturalidade destas passagens poderia, talvez, até prescindir de cercas condutoras, pois a mata de galeria e a água já mostrariam o caminho. Melhor ainda se evitássemos cortar fragmentos florestais, unidades de conservação, terras indígenas com linhas de transmissão, rodovias e ferrovias. Embora as curvas pudessem tornar este caminho mais longo e caro financeiramente; o caminho seria menos monótono e a paisagem mais variada para os diferentes transportadores”, acrescenta Eleonore.


E o que isto afeta a minha vida?


Muito simples! Atropelamentos da vida silvestre podem causar desequilíbrios ecológicos que afetam diretamente o ser humana. Sabe como? Em determinadas localidades, a perda de espécies pode ter um impacto muito grande sobre a biodiversidade e desencadear um desastre ambiental. É que quando pensamos nos atropelamentos de onças pardas, pintadas (espécies simbólicas do Brasil) ou outros predadores de topo que conseguimos traçar o nexo causal e suas consequências diretas ao ser humano.

Pense! “O que a onça parda come? Filhotes de capivara e tatus, por exemplo. Sabemos que uma superpopulação de capivaras acaba sendo associada a uma infestação maior de carrapatos e casos de febre maculosa em humanos, e alguns casos levando a óbitos. No caso dos tatus, uma superpopulação pode ser associada a um aumento de casos de leishmaniose”, explica Eleonore. “Assim, preservar estes predadores é preservar seus serviços ecológicos. Não devemos subestimar esta missão tão importante. No caso dos frugívoros (espécies que se alimentam somente de frutas), precisamos considerar seus serviços de dispersão de sementes na regeneração da vegetação. Ou seja, também não devemos subestimar a importância dos serviços destes frugívoros, e assim por diante. Estes valores não são contabilizados nos atropelamentos e muito menos os efeitos das estradas na separação de populações, na redução do fluxo gênico”, finaliza Eleonore.


O desenvolvimento sustentável e bem-estar animal: Brasil na contramão do mundo


Enquanto o resto do planeta se une em defesa da fauna e reconhece o seu valor enquanto pilar de sustentação da biodiversidade e saúde do planeta, o Brasil insiste em direcionar seus esforços rumo a uma matança predatória contra o meio ambiente. Isto porque enquanto o país pensa em formas de fomentar a destruição predatória e desenfreada da nossa rica fauna e flora (com a retomada da PL 5544/2020 e de tantas outras regras de “proteção ambiental”, que nada tem de proteção); o resto do mundo se une em prol da defesa do meio ambiente e da fauna e flora.

Recentemente o encontro realizado durante 5a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (com 193 países membros da ONU, empresas e sociedade civil, em Nairobi/Quênia) emitiu resolução que faz referência explícita ao bem-estar animal. De acordo com a proposta não há como pensar em conservação do meio ambiente e desenvolvimento sustentável sem levar em conta o bem-estar das milhões de espécies de animais do nosso planeta. O texto da resolução solicita ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que produza um relatório com a colaboração da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), sobre a relação entre bem-estar animal, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

O documento deverá identificar parceiros, partes interessadas e será apresentado para tomada de decisão dos Estados membros com relação a ações que visem a proteção dos animais, seus habitats e o cumprimento dos requisitos de bem-estar animal. De acordo com o chefe de biodiversidade e terra do Pnuma, Doreen Robinson, a exploração insustentável e o consumo excessivo de animais estão ligados às três crises interrelacionadas de perda de biodiversidade, mudança climática, poluição, e também estão ligados ao aumento do risco de doenças zoonóticas. “O bem-estar dos seres humanos, dos animais e do planeta estão ligados. Quando paramos de degradar a natureza, também reduzimos os riscos para a saúde humana”, pontua Doreen.


Portanto, pare e pense nas consequências para a sua vida diária se a PL 5544/2020 (que visa a retomada da caça desportiva de animais silvestres) é aprovada no Brasil. Em especial porque a prática inclui áreas com significativo índice de atropelamentos de animais silvestres e isto pode colocar, ainda mais, em risco a biodiversidade de espécies que são vitais para o equilíbrio ecológico dos ecossistemas.


Se o mundo converge na proteção da fauna e conclui que sem ela é impossível conter a perda da biodiversidade, mitigar as mudanças climáticas, reduzir a poluição e o risco de novas doenças zoonóticas infecciosas (Como por exemplo, a gripe aviária ou o novo coronavírus), por que o Brasil tem que ir na contramão e permitir a aprovação da PL 5544/2020? Uma falácia soberba em um país sem um mínimo de controle e fiscalização: nem da caça e nem de atropelamento de animais silvestres em rodovias.



CONTATO DA PESQUISADORA:


Nome completo: Eleonore Zulnara Freire Setz

Titulação: pós Doc, Universidade da Georgia em Athens, USA.

Títulos dos projetos: Ecologia dos atropelamentos silvestres em estradas de três larguras e trânsito, e Ecologia alimentar de carnívoros em unidades de conservação no nordeste da Geórgia, USA

Fotos: Acervo pessoal Eleonore Setz

Endereço do instagram para marcação: @ lama_unicamp

Atualizado: 19 de out. de 2025

Pesquisadora usa genética para diferenciar espécies de formigas brasileiras


Ecóloga Marianne Silva

Preparado por Tuany Alves - Jornalista do Projeto Mulheres na Ecologia

Revisado por Elvira D'Bastiani - Ecóloga do Projeto Mulheres na Ecologia


Foto: Philipp Hönle.


Na natureza, nem tudo é o que parece, e encaixar essas variações em categorias pode ser, muitas vezes, um verdadeiro trabalho de detetive. Acontece que, embora seja um dos pilares da biologia, a definição do que é uma espécie ainda é um grande desafio. Segundo a doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Unicamp, Marianne Silva, quando a diversidade de um grupo não é tão grande, definir o que é uma espécie pode ser mais fácil. Porém, em casos como o de formigas essa jornada é mais complicada, como é o caso das Camponotus!


Abundantes no cerrado as Camponotus renggeri e C. rufipes participam de várias interações de defesa com as plantas, sendo bastante utilizada em trabalhos de interação formiga-planta no Cerrado e em trabalhos de levantamento de fauna. Contudo, por muito tempo, existiu uma incerteza sobre a sua taxonomia (o grupo em que se encaixam) e até se elas eram mesmo duas espécies ou apenas uma.


Para resolver esse mistério da natureza, Marianne e a equipe do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Unicamp, contaram com a ajuda da genética. "Olhamos para a composição genética dessas formigas, usando marcadores moleculares microssatélites e amplificação do gene mitocondrial COI”, conta a pesquisadora. Marianne e sua equipe também caracterizaram em que tipo de ambiente as formigas mais ocorriam, os tipos de ninhos de cada espécie, sua distribuição e sua composição em termos de número de rainhas e operárias nas colônias. “Juntas essas informações e evidências nos permitiram mostrar que, de fato, essas duas espécies se tratam de diferentes entidades taxonômicas”, explica Marianne.


DNA de Formiga


Porém, o grupo não parou por aí! A partir dos resultados de sua pesquisa, Marianne desenvolveu um segundo estudo. O objetivo dessa vez era encontrar os subgrupos genéticos dentro da espécie C. rufipes, o que não foi observado para C. renggeri. “Na época, a gente se perguntou se havia alguma diferença no sistema reprodutivo dessas espécies que levavam a essa distinção na distribuição da diversidade genética”, lembra a pesquisadora.


Foto: Marianne Silva.


Para resolver esse novo mistério a equipe decidiu estudar a composição genética das colônias e utilizaram marcadores microssatélites, uma análise muito parecida com as feitas nos exames de DNA para verificar a paternidade em humanos. “Conseguimos olhar para as linhagens maternas e paternas das duas espécies e mostramos que elas têm estratégias reprodutivas diferentes. No entanto, o nível de diversidade genética dentro das colônias era igual”. Ou seja, diferentes estratégias reprodutivas podem levar ao mesmo resultado no nível da diversidade genética.


Com essa descoberta, veio a dúvida: se a resposta para a diferenciação de padrões de distribuição de diversidade genética não está na reprodução das espécies, o ambiente seria o responsável?


Com isso em mente, a equipe partiu para o terceiro estudo! Segundo Marianne, para responder a essa pergunta eles usaram uma abordagem recente de genética da paisagem. “Nesse tipo de análise, usamos os dados genéticos das formigas para entender como o ambiente facilita ou impede a dispersão delas”, explica Marianne. O resultado foi de que o ambiente não influencia a dispersão da C. renggeri, mas a da C. rufipes sim! Acontece que nela as rainhas dependem de áreas de cerrado para se dispersarem, “assim, áreas fragmentadas de cerrado podem ser uma barreira à dispersão dessa espécie, levando à formação de subgrupos genéticos”, concluíram a equipe.


Conhecendo a biodiversidade


Segundo Marianne, esses resultados são importantes à medida que mostram que quanto mais fontes de evidências utilizamos, mais robusto é o reconhecimento de uma espécie como válida. O que é ainda mais crucial quando se busca identificar a biodiversidade de espécies. “Em meu trabalho um estudo foi encadeado pelo outro e hoje temos uma compreensão melhor do que influencia a diversidade genética das formigas, um aspecto pouco explorado em ambientes Neotropicais, como o Brasil. Isso nos permite aprofundar e entender melhor os sistemas biológicos, dando ainda mais embasamento para, por exemplo, medidas de conservação das espécies”, destaca Marianne. Além disso, embora o estudo tenha sido focado em duas espécies de formigas, incertezas taxonômicas existem em diferentes grupos de seres vivos. “A abordagem que utilizamos pode ser estendida e adaptada a esses diferentes grupos”, ressalta Marianne.


O que é a ecologia molecular?


Ecologia molecular é um ramo de estudo em que se busca responder perguntas que são essencialmente ecológicas e evolutivas, mas a metodologia inclui a análise de dados moleculares. Por meio dessas informações conseguimos responder perguntas que são difíceis, ou impossíveis, de responder apenas com dados observacionais. Segundo Marianne, temos exemplos fantásticos do uso de dados moleculares dentro da ecologia. Por exemplo, a partir do DNA de plantas encontrados nas fezes dos grandes herbívoros da África, pesquisadores foram capazes de entender como esses animais conseguem coexistir, mesmo todos comendo plantas.


No mar, pesquisadores foram capazes de dizer – por meio de DNA encontrado na água – quais espécies de peixe ocorrem em diferentes faixas de distância. Além disso, fazendo teste de paternidade em lobos marinhos, pesquisadores conseguiram mostrar que esses animais fazem cópula subaquática. No Brasil, cientistas olharam para a composição genética dos mangues e conseguiram mostrar que os mangues do norte do país apresentam adaptações diferentes daqueles localizados no sudeste do Brasil. “Ou seja, são muitos exemplos legais e que mostram que a ciência fica ainda mais interessante quando diferentes áreas se juntam para investigar problemas”, finaliza Marianne.



CONTATO DA PESQUISADORA:


Nome completo: Marianne Azevedo Silva

Titulação: doutoranda na Universidade Estadual de Campinas – Programa de

Pós-graduação em Ecologia

Título dos projetos: Estudos sobre formigas neotropicais: interações com insetos herbívoros, ecologia comportamental e organização social (1); Ecologia de interações, ecologia comportamental e biologia molecular de formigas neotropicais

(2); Ecologia molecular de formigas neotropicais (3).

Fotos: Acervo pessoal Philipp Hönle (1 e 2) e Marianne Silva (3 e 4)

Endereço do Instagram para marcação: @mari.formiga

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