Projeto Mulheres na Ecologia promove visibilidade para cientistas ecólogas brasileiras
- 25 de fev.
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O Projeto ‘Mulheres na Ecologia’ conecta comunicadoras e cientistas de todo o Brasil para fortalecer uma ciência mais diversa, acessível e representativa.
Por: Elvira D’Bastiani
Criado em 2020, no início da pandemia de COVID-19, o projeto “Mulheres na Ecologia” surgiu a partir de uma percepção crítica e de um questionamento incômodo, em um contexto marcado por cortes sucessivos de verbas na ciência brasileira, desmonte institucional, negacionismo científico e desinformação: “por que os nomes mais lembrados na Ecologia ainda são, em sua maioria, masculinos?” Dessa inquietação nasceu a proposta de construir uma iniciativa comprometida com a valorização de mulheres historicamente silenciadas, com a resistência aos ataques à ciência e com o enfrentamento do negacionismo, além de contribuir para a formação de novas referências científicas. Assim, o projeto busca fortalecer uma ecologia mais inclusiva, democrática e socialmente relevante no Brasil.
Atualmente, o projeto conta com uma equipe diversa de voluntárias, formada por pesquisadoras em diferentes estágios da carreira acadêmica (desde a graduação até o pós-doutorado) e por profissionais de setores não acadêmicos. Unidas por um propósito comum, as integrantes do coletivo buscam fortalecer a representatividade feminina na ciência e ampliar a visibilidade de mulheres cientistas, realçando as pesquisas e ações lideradas por elas no Brasil e buscando fomentar o aumento da diversidade na área da ecologia, seja de raça, etnia ou gênero.

As principais frentes do projeto são a comunicação científica, voltada à comunidade acadêmica, e a divulgação científica, direcionada ao público em geral, com linguagem acessível e presença ativa nas redes sociais. Essas duas frentes se complementam ao buscar democratizar o acesso ao conhecimento científico e mostrar a importância das pesquisas desenvolvidas por mulheres brasileiras. Democratizar o acesso ao conhecimento científico significa tornar a ciência compreensível, acessível e disponível para todas as pessoas, e não apenas para especialistas, pesquisadores ou grupos privilegiados, permitindo que a sociedade participe, questione e se beneficie do saber científico. É nesse sentido que o projeto “Mulheres na Ecologia” busca contribuir, ampliando as vozes, as referências e as formas de acesso à ciência ecológica brasileira historicamente silenciadas.
Entre as principais atividades editoriais do “Mulheres na Ecologia” estão:
Biografias - um espaço que tem como objetivo dar visibilidade às mulheres ecólogas por meio da divulgação de suas trajetórias acadêmicas e profissionais, incentivando sua permanência e valorização na carreira científica. Semanalmente, às quartas-feiras, compartilhamos novas biografias em nossas redes sociais;
Ecologia em Pauta - uma linha editorial em que produzimos comunicados de imprensa (press releases) sobre artigos científicos indicados pelas ecólogas do projeto e por pessoas que acompanham nossas ações. O objetivo é traduzir resultados e debates da ciência ecológica para uma linguagem acessível, aproximando o conhecimento científico da comunidade não científica e ampliando seu alcance e impacto;
Representatividade - essa linha editorial é voltada à divulgação de temas relacionados à inclusão de grupos historicamente sub-representados e ao fortalecimento da diversidade nos espaços profissionais da ecologia. A iniciativa visa demonstrar a importância da diversidade na construção de ambientes científicos mais equitativos, diversos e socialmente responsáveis;
Ecologia - nessa linha editorial promovemos o conhecimento e o debate sobre diferentes temas da ecologia, como conservação, biodiversidade, ecossistemas, mudanças climáticas, entre outros. Os conteúdos baseiam-se na divulgação de pesquisas e debates científicos atuais, contribuindo principalmente para a construção de conhecimento para o público e para a formação de jovens e futuros profissionais;
Ecologia para Crianças - essa linha editorial tem como propósito aproximar o público infantil dos temas ecológicos de forma lúdica, acessível e educativa. Por meio da divulgação de conteúdos interativos e de atividades criativas, buscamos estimular a curiosidade, o cuidado com a natureza e a construção do pensamento crítico desde a infância.
Por meio dessas linhas editoriais, jovens cientistas, colaboradoras do “Mulheres na Ecologia”, apresentam e discutem iniciativas que promovem equidade, diversidade e inclusão, estimulando e inspirando mudanças nas instituições acadêmicas brasileiras e em outros espaços profissionais. O projeto também organiza eventos, palestras e rodas de conversa, fortalecendo a troca de experiências e estimulando debates sobre ciência, equidade e representatividade. Neste ano de 2026, contamos com uma nova linha editorial do projeto, o ‘Podcast: Ecologia por Elas’, que é um podcast que conecta o conhecimento científico à sociedade, abordando crises ambientais, cenários políticos e sociais e o protagonismo das mulheres na construção de futuros sustentáveis no Brasil. Em tempos de desvalorização da ciência, da educação e de aumento da desinformação, o “Mulheres na Ecologia” busca ampliar o interesse e o reconhecimento da ciência ecológica brasileira em temas socioambientais urgentes, traduzindo-os com clareza, empatia e compromisso social. Diferente de muitos podcasts que abordam ciência de maneira técnica ou centrada em especialistas de grandes centros, nossa proposta é escutar e valorizar as vozes de jovens cientistas de diferentes regiões do Brasil. Queremos mostrar que a ciência é feita por mulheres de diferentes raças, origens e etnias e que seus saberes também são formas de produzir conhecimento ecológico. Na primeira temporada, teremos 12 episódios e, em cada um, serão convidadas de duas a três mulheres que trabalham com ecologia para discutir temas relacionados à conservação ambiental, à crise climática e às perspectivas futuras do fazer ecologia.
Neste ano, também publicamos nosso primeiro artigo científico na revista Scientific Reports. Na pesquisa “Barreiras estruturais impulsionam a desigualdade de gênero ao longo das carreiras acadêmicas na ecologia brasileira” (título em inglês: Structural barriers drive gender inequality across academic careers in Brazilian ecology), mostramos que a desigualdade de gênero na ecologia brasileira transpassa diversos fatores interconectados, relacionados a questões pessoais, institucionais e estruturais que dificultam a representação, a retenção e a produtividade das mulheres ao longo das etapas da carreira acadêmica. Disparidades persistentes nas responsabilidades de cuidado, no acesso a financiamento para pesquisas, nos cargos de liderança e na exposição à discriminação são agravadas pela falta de percepção masculina da desigualdade de gênero, o que leva à falta de apoio institucional e de políticas públicas. Nesse estudo, mostramos que enfrentar esses desafios exige uma ação coordenada que combine regulamentações institucionais inclusivas, licença parental equitativa, mentoria proativa e engajamento genuíno por parte de líderes masculinos. Esforços para coletar e analisar dados por gênero, raça, origem socioeconômica e outros grupos historicamente sub-representados são extremamente importantes para orientar intervenções baseadas em evidências, promover a diversidade e fomentar um ambiente de pesquisa no qual todos possam prosperar. Por fim, chamamos a atenção para o fato de que reconhecer e desmantelar as barreiras sistêmicas no meio acadêmico brasileiro é um pré-requisito para fortalecer a inovação científica e a pesquisa ecológica no país.
Diante dos desafios estruturais e das desigualdades evidenciadas ao longo das trajetórias acadêmicas, a busca pela equidade de gênero se afirma como uma causa que tem como premissa a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e representativa. O Projeto “Mulheres na Ecologia” convida pesquisadores, educadores, gestores e o público em geral a participar dessas ações, a compartilhar conhecimento e a apoiar a participação de mulheres na ciência. Cada contribuição ajuda a fortalecer a representatividade feminina na ciência, inspirar futuras gerações e promover mudanças nas instituições acadêmicas e na sociedade. Juntas, essas ações estão transformando a ecologia brasileira em um espaço mais diverso, acessível e acolhedor, onde diferentes vozes e experiências são valorizadas e reconhecidas, independentemente da sua origem.
Conteúdo: Elvira D’Bastiani
Revisão: Juliana Ciccheto e Ana Paula Lula
Editora desta edição: Juliana Ciccheto
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Quem é Elvira?
Ecóloga quantitativa, com foco em ecologia e evolução de doenças infecciosas. Atualmente, realiza seu pós-doutorado no laboratório da professora Dra. Ana Bento, no Departamento de Saúde Pública e Ecossistêmica da Cornell University, em Nova Iorque, Estados Unidos. Sua pesquisa investiga como as interações entre patógenos e hospedeiros moldam e são moldadas por mecanismos e processos ecológicos e evolutivos em diferentes ambientes e escalas. Atualmente, está focada em compreender a dinâmica ecológica e evolutiva de vírus transmitidos por mosquitos que causam doenças em humanos e em animais silvestres nas Américas.
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e-mail: elviradbastiani@gmail.com



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