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Povos indígenas e comunidades locais ajudam a conservar a biodiversidade por meio do manejo sustentável de espécies e da proteção de territórios. 


Por: Ana Luiza Epifanio de Souza


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A conservação da biodiversidade tem sido tradicionalmente baseada na ideia de manter a natureza protegida da ação humana, priorizando os ambientes o mais intactos possível. No entanto, um estudo recente, publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution, propõe uma mudança importante nessa perspectiva. A Dra. Carolina Levis e demais colaboradores analisaram evidências científicas e estudos de caso na América do Sul e concluíram que Povos Indígenas (PI) e Comunidades Locais (CL) desempenham um papel fundamental na conservação da biodiversidade. Ao manejar espécies, prática que envolve técnicas e conhecimentos utilizados para cultivar, domesticar, proteger, selecionar e utilizar plantas e animais de forma sustentável, modificar paisagens e proteger seus territórios ao longo de milhares de anos, esses grupos contribuem diretamente para a manutenção da natureza. 

A relação entre seres humanos e natureza nem sempre foi de degradação. Durante muito tempo, políticas de conservação consideraram que os ecossistemas mais preservados seriam aqueles sem presença humana. No entanto, evidências científicas indicam que muitos ambientes considerados “intactos”, como partes da Amazônia, foram historicamente moldados por populações humanas. Povos indígenas desenvolveram práticas de manejo que aumentam a diversidade de espécies, como a domesticação de plantas, o uso controlado do fogo e a criação de paisagens chamadas de “florestas culturais” (Fig. 1).

Como destacam os autores, “os sistemas socioecológicos resultam de interações e retroalimentações entre biodiversidade e diversidade biocultural”, o que reforça que a natureza e a sociedade não podem ser tratadas separadamente. Dessa forma, integrar conhecimentos tradicionais com ciência moderna pode gerar soluções mais eficazes para enfrentar a crise ambiental global.


Figura 1. Povos indígenas manejam espécies e territórios há milhares de anos, contribuindo para a manutenção da biodiversidade e para a conservação de ecossistemas amazônicos. Fonte: Instituto Socioambiental (ISA) e Articulação Nacional de Agroecologia.


Segundo os autores, ignorar a relação entre a natureza e a espécie humana pode ter consequências graves: “suprimir as interconexões entre diversidade cultural e biodiversidade pode levar à perda de ambos”. Diante disso, o estudo levanta uma questão central: é possível conservar a biodiversidade ignorando o papel das culturas humanas?

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores analisaram a literatura científica e reuniram estudos de caso conhecidos como pontos de esperança socioecológicos “Social–ecological hope spots”, definidos pelos autores como iniciativas promissoras de conservação que integram biodiversidade, conhecimentos tradicionais e bem-estar humano, mostrando como povos indígenas e comunidades locais podem contribuir para a proteção dos ecossistemas e para a construção de sistemas mais sustentáveis (Fig. 2). Esses exemplos mostram situações reais em que a conservação da biodiversidade está associada ao bem-estar humano. Um dos casos analisados ocorre no Alto Xingu, na Amazônia, onde povos indígenas combinam conhecimentos tradicionais com tecnologias modernas para monitorar o território e proteger recursos naturais (Fig. 2, ponto 1). Outro exemplo é o manejo do pirarucu (Arapaima gigas), no qual comunidades locais participam da contagem dos peixes e definem regras de pesca sustentáveis, o que levou à recuperação das populações da espécie (Fig. 2, ponto 2).



Figura 2. Variação da diversidade biocultural na América do Sul, com a localização de pontos de esperança socioecológica (“social–ecological hope spots”) consolidados e promissores. O mapa mostra a variação espacial na riqueza (número de espécies) de vertebrados terrestres (gradiente de cor cinza) e na riqueza (número de línguas) linguística (gradiente de cor roxa) na América do Sul. (1) Ponto de esperança no Território Indígena do Xingu, floresta de transição sul da Amazônia; (2) Cogestão do peixe pirarucu em ecossistemas de água doce, Amazônia central; (3) Turismo arqueológico e ecológico do patrimônio natural-cultural no Parque Nacional da Serra da Capivara, floresta sazonalmente seca da Caatinga; (4) Manejo indígena do fogo no Território Indígena Xavante, Cerrado; e (5) Cogestão de espécies culturalmente importantes em Florestas de Araucáriana Mata Atlântica meridional. Fonte: Levis et al. (2022).


Como ressaltam os autores, essas iniciativas mostram que o engajamento de povos indígenas e comunidades locais pode ser a melhor esperança para a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas. Esses resultados demonstram que a participação ativa das comunidades locais pode gerar benefícios ecológicos e sociais ao mesmo tempo. Dessa forma, os impactos desse estudo vão além da ciência. Os autores destacam que incluir povos indígenas e comunidades locais nas políticas de conservação pode melhorar a gestão dos recursos naturais, reduzir conflitos socioambientais e fortalecer a sustentabilidade, como no caso do manejo do pirarucu (Fig. 3). Além disso, essa abordagem contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à proteção da vida terrestre, redução das desigualdades e promoção de sociedades mais justas.

Como Levis e colaboradores afirmam, “ecossistemas saudáveis são a base da existência dos povos indígenas”, uma perspectiva da qual as sociedades modernas ainda têm muito a aprender. Diante disso, o estudo aponta a necessidade de uma mudança de paradigma: conservar a biodiversidade não significa excluir as pessoas, mas sim reconhecer e integrar seus conhecimentos, práticas e direitos. Para os autores, a ciência pode contribuir nesse processo ao promover o diálogo entre conhecimentos científicos e saberes indígenas e tradicionais, valorizando diferentes formas de compreender, manejar e conservar a natureza na construção de estratégias mais justas, inclusivas e sustentáveis de conservação ambiental.


Figura 3. O manejo comunitário do pirarucu (Arapaima gigas) na Amazônia tem contribuído para a recuperação da espécie e para a geração de renda em comunidades locais. Fonte: Instituto Mamirauá e Brasil de Fato (2022).


Conteúdo: Ana L. Epifanio

Revisão:  Juliana Ciccheto e  Priscila Mateus Couto

Revisão final: Mariana Silva Ferreira

Editora desta edição: Daiana Reis


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Sobre a autora: Carolina Levis é bióloga, ecóloga e pesquisadora interdisciplinar com atuação voltada à relação entre povos indígenas, comunidades tradicionais e conservação da biodiversidade amazônica. Graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutorado com dupla titulação entre o INPA e a Wageningen University & Research, na Holanda. Em sua pesquisa, investiga como o manejo indígena e tradicional moldou os ecossistemas amazônicos ao longo do tempo, integrando áreas como Ecologia, Arqueologia, Antropologia e Biogeografia. Atualmente é professora da Universidade Federal de Santa Catarina e colaboradora do INPA, atuando em redes nacionais e internacionais voltadas à sociobiodiversidade e ao diálogo entre conhecimentos indígenas, tradicionais e científicos. 


Pesquisas concentradas em poucas regiões do país dificultam a compreensão da real diversidade de peixes dos riachos brasileiros: muitas das espécies continuam "invisíveis" para a ciência. 


Por: Andreza Medeiros


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Um estudo coordenado pela pesquisadora Dra. Nara Tadini Junqueira analisou como as pesquisas sobre peixes de riachos vêm sendo realizadas no Brasil e identificou importantes lacunas no conhecimento científico sobre esses ambientes aquáticos. Na pesquisa,  os autores revisaram artigos científicos publicados sobre amostragem de peixes em riachos brasileiros, avaliando aspectos como a distribuição geográfica dos estudos selecionados e as técnicas aplicadas na coleta de dados. 

Os resultados revelam que, embora o número de estudos tenha aumentado ao longo dos últimos anos (Fig. 1), ainda existem limitações importantes que dificultam compreender a real diversidade de espécies presentes em ambientes de água doce. A pesquisa também revelou uma forte concentração dos estudos nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, enquanto regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste permanecem pouco investigadas. Junqueira e colaboradores acreditam que essa desigualdade geográfica pode fazer com que muitas espécies e padrões ecológicos ainda sejam desconhecidos pela ciência. Logo, essas limitações podem subestimar, ou seja, calcular por baixo, a diversidade de espécies de peixes e dificultar comparações com outros estudos por falta de dados. 


Figura 1. Crescimento do número de estudos sobre assembleias de peixes, ou seja,  conjunto de espécies que vivem e interagem em um mesmo riacho, realizados no Brasil ao longo do tempo. Os gráficos mostram: (a) o aumento cumulativo do número de artigos científicos publicados; (b) de riachos analisados; e (c) de locais ou sítios amostrados identificados nesta revisão. Os dados revelam a expansão das pesquisas sobre a biodiversidade de peixes em riachos brasileiros nos últimos 15 anos. 


Para realizar esta pesquisa e chegar a estes resultados, a Nara e colaboradores fizeram um levantamento da literatura a partir de trabalhos já publicados sobre peixes de riachos brasileiros. Esse tipo de pesquisa, conhecido como revisão da literatura, é importante porque permite reunir e analisar o conhecimento científico produzido ao longo dos anos sobre um determinado tema. A partir disso, os pesquisadores conseguem compreender o chamado “estado da arte”, expressão utilizada na ciência para descrever o panorama mais atualizado do conhecimento disponível em uma área: o que já se sabe, quais métodos são mais utilizados, quais regiões foram mais estudadas e quais perguntas ainda permanecem sem resposta.

Os pesquisadores buscaram artigos científicos em bases de dados online como Web of Science (anteriormente denominada ISI Web of Knowledge), o SciELO e o Scopus, reunindo estudos publicados até 2016. Inicialmente, mais de mil artigos foram encontrados, mas apenas os que atendiam aos critérios definidos pelos autores foram incluídos na análise final (Fig. 2). Foram avaliadas informações como localização dos estudos, número de riachos analisados, quantidade de pontos de coleta, espécies registradas e os métodos utilizados para capturar os peixes.


Figura 2. Fluxograma detalhando os critérios de seleção das publicações e o número de estudos derivados em cada etapa. As buscas bibliográficas identificaram, no total, 1152 artigos, dos quais 88 foram selecionados. As fases de filtragem incluíram: remoção de estudos não acessíveis, estudos duplicados em diferentes bases de dados e estudos que não continham todas as informações desejadas. 


Outro ponto destacado pelo estudo é a grande variedade de métodos utilizados nas pesquisas. Foram registradas 11 técnicas diferentes de amostragem, com predominância da pesca elétrica, da peneira metálica e das redes de arrasto. A falta de padronização dificulta a comparação entre estudos realizados em diferentes regiões e períodos. Além disso, muitos trabalhos analisados tiveram curta duração, geralmente cerca de um ano, e envolveram poucos riachos ou poucos pontos de coleta.

Para os pesquisadores, esse baixo esforço amostral pode fazer com que parte da biodiversidade passe despercebida. Em estudos sobre biodiversidade, quanto maior o número de coletas e áreas analisadas, maiores as chances de encontrar espécies raras ou menos abundantes. Uma forma simples de entender isso é imaginar que, quanto mais vezes se observa um ambiente, mais espécies diferentes tendem a aparecer. Esse princípio é representado pela chamada ”curva de rarefação", uma ferramenta usada pelos cientistas para avaliar se a quantidade de amostragens foi suficiente para representar a diversidade de espécies de um local. Quando poucas coletas são realizadas, ou quando o esforço de amostragem é baixo,  a curva indica que novas espécies ainda poderiam ser encontradas caso o estudo continuasse. 

Por fim, o estudo mostra a ampliação do conhecimento sobre a biodiversidade aquática do país; no entanto, os autores alertam que esse avanço ainda ocorre de forma desigual. Por exemplo, a grande diversidade de métodos utilizados e o baixo esforço amostral em muitos trabalhos dificultam comparações entre estudos e podem comprometer a compreensão real da biodiversidade desses ambientes. Essas limitações podem fazer com que diversas espécies permaneçam “invisíveis” para a ciência: especialmente espécies raras, pouco abundantes ou presentes em regiões ainda pouco estudadas. Isso significa que a diversidade de peixes dos riachos brasileiros pode ser ainda maior do que a atualmente registrada. Por isso, o estudo reforça a importância de ampliar pesquisas em áreas com poucas informações e estabelecer métodos padronizados de amostragem, contribuindo para retratos mais precisos da biodiversidade e para estratégias mais eficientes de conservação dos ecossistemas aquáticos brasileiros.


Conteúdo: Andreza Medeiros

Revisão: Rita de Cássia e Juliana Ciccheto

Revisão final: Fernanda Souza

Editora desta edição: Daiana Reis


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Sobre a autora:

A Dra. Nara Tadini Junqueira é uma pesquisadora com foco em ecologia de comunidades aquáticas, especialmente no estudo de assembleias de peixes de água doce, com abordagem voltada à conservação da biodiversidade e à análise de padrões ecológicos. Atua em pesquisas sobre a ecologia de riachos e a estrutura e dinâmica de comunidades de peixes em ecossistemas lóticos. Possui formação acadêmica na área de ecologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), onde desenvolve estudos voltados à ictiologia e ecologia aquática. Suas principais áreas de atuação incluem biodiversidade, ecologia de comunidades, ecologia de peixes de água doce, conservação e monitoramento ambiental.


Estudo inédito comprova que a proteção de áreas ancestrais reduz surtos e garante  a qualidade ambiental

Por: Priscila Mateus


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Territórios indígenas possuem um papel fundamental não apenas na conservação da biodiversidade, mas também na proteção da saúde humana na Amazônia, especialmente quando são oficialmente reconhecidos e mantidos em áreas com florestas bem preservadas. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pelas cientistas Dra. Julia Barreto e Dra. Ana Filipa Palmeirim, publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature Portfolio.

As pesquisadoras analisaram quase duas décadas de dados (de 2001 a 2019) sobre diferentes problemas de saúde na Amazônia, incluindo doenças respiratórias (que afetam os pulmões), cardiovasculares (relacionadas ao coração) e zoonóticas, aquelas transmitidas de animais para humanos, além das transmitidas por vetores, como mosquitos. O estudo abrangeu toda a Pan-Amazônia, região que inclui a floresta amazônica distribuída por nove países: Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, com dados em escala municipal cobrindo mais de 1.700 municípios.

Para entender como o ambiente influencia a saúde das populações, a equipe combinou diferentes tipos de informação. Foram utilizados dados de saúde pública, registros de incêndios florestais e estimativas de poluição do ar, especialmente a concentração de partículas finas conhecidas como PM2.5, que podem penetrar profundamente nos pulmões e até alcançar a corrente sanguínea. O estudo também levou em conta que a poluição gerada por queimadas pode se deslocar por centenas de quilômetros, afetando regiões muito além do local onde o fogo ocorre. Além disso, as pesquisadoras consideraram fatores ambientais importantes, como a quantidade de floresta presente em cada região e o grau de fragmentação da paisagem, ou seja, o quanto a floresta está contínua ou dividida em partes menores e isoladas, geralmente devido ao desmatamento.

Outro ponto central foi diferenciar a cobertura florestal dentro e no entorno dos Territórios Indígenas, permitindo entender como as condições da paisagem ao redor influenciam seus efeitos sobre a saúde humana. Para analisar essas relações, foram utilizados modelos estatísticos capazes de identificar padrões entre ambiente, poluição e doenças ao longo do tempo e do espaço. Para orientar essa análise, as autoras propuseram um conjunto de hipóteses sobre como os Territórios Indígenas, a cobertura florestal e a fragmentação da paisagem podem influenciar a incidência de doenças. O esquema conceitual, apresentado na Figura 1, mostra hipóteses de que esses fatores não atuam isoladamente: seus efeitos podem se somar ou interagir entre si, por exemplo, quando a extensão dos territórios depende do nível de desmatamento ou da qualidade da paisagem ao redor. A partir dessas hipóteses, foram testados diferentes cenários para entender como esses fatores, isolados ou em conjunto, afetam a saúde humana.



Figura 1. Relações entre Territórios Indígenas (TI), fragmentação florestal e cobertura florestal na influência sobre a incidência de doenças. Os blocos superiores representam os principais fatores analisados: Territórios Indígenas (TI), que podem reduzir a incidência de doenças dependendo da qualidade e manejo da floresta; Fragmentação Florestal, que pode tanto favorecer a propagação de doenças (ex.: zoonoses) quanto reduzir doenças relacionadas ao fogo; e Cobertura Florestal, que exerce um efeito estabilizador, sendo associada à redução da incidência de doenças quando mais extensa. Os quadros centrais apresentam as hipóteses de interação (*) entre os fatores: TI +/* Fragmentação: a fragmentação pode modificar o efeito protetor dos territórios indígenas; Cobertura Florestal +/* Fragmentação: a forma como a paisagem está organizada influencia o impacto da cobertura florestal; e TI +/* Floresta fora de TI: a influência conjunta da cobertura florestal dentro e fora dos territórios indígenas. Na parte inferior, a hipótese integrada (TI +/* Fragmentação +/* Floresta fora de TI) sintetiza todos os fatores atuando conjuntamente na determinação da incidência de doenças, com interações dependentes do grau de fragmentação da paisagem. As linhas pontilhadas e os símbolos de adição e asterisco indicam relações adicionais ou interações entre os componentes.


As autoras, Dra. Barreto e Dra. Palmeirim, e colaboradores mostram que territórios indígenas podem reduzir a incidência de doenças associadas à fumaça de queimadas, como problemas respiratórios e cardiovasculares, mas esse efeito depende fortemente do contexto ambiental em que estão inseridos. Em municípios com mais de 45% de cobertura florestal, essas áreas estão associadas à diminuição dos impactos do material particulado fino (PM2.5), um dos principais poluentes responsáveis por internações e mortes prematuras na região. No entanto, essa relação não é simples: em paisagens muito degradadas, com pouca floresta no entorno, a presença de Territórios Indígenas pode não ser suficiente para compensar os impactos das queimadas e, em alguns casos, pode até estar associada a maiores incidências de doenças, um reflexo da pressão ambiental ao redor.

Ao todo, foram analisados mais de 28 milhões de casos de doenças na Amazônia, dos quais cerca de 80% estão relacionados a problemas respiratórios e cardiovasculares ligados à poluição do ar causada por incêndios florestais. Durante esse período, mais de 500 mil km² da Amazônia foram atingidos pelo fogo, com o Brasil concentrando a maior área queimada (Fig. 2, a). Ainda assim, os impactos da poluição ultrapassam fronteiras nacionais, afetando populações a centenas de quilômetros de distância, o que reforça a natureza interconectada do bioma.



Figura 2. Relação entre cobertura florestal, poluição por material particulado fino (PM 2.5) e incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares na Pan-Amazônia. Onde: (a) Distribuição do número de focos de queimadas. As cores variam de tons claros a escuros, indicando a intensidade dos registros: áreas em tons mais claros (verde/amarelo) representam menor quantidade de focos, enquanto áreas em tons mais escuros (laranja/vermelho) indicam maior concentração de queimadas; e (b) Distribuição espacial do desmatamento. As cores representam a ocorrência do fogo e áreas reconhecidas, ou não, como Territórios Indígenas (IT na figura) dentro do bioma Amazônico. Áreas em verde indicam regiões com menor ou nenhuma ocorrência de desmatamento, enquanto tons em um verde mais escuro indicam Territórios Indígenas reconhecidos, enquanto áreas em laranja indicam Territórios Indígenas não reconhecidos. Em vermelho/bordô temos áreas com presença de fogo.  Fonte: Communications Earth & Environment.


A fragmentação da floresta, ou seja, quando áreas contínuas são divididas em partes menores e isoladas, também desempenha um papel central. De modo geral, quanto maior a fragmentação, maior a incidência de doenças. Isso ocorre porque paisagens fragmentadas têm mais áreas de “bordas” entre a floresta e outros ambientes, como rurais ou urbanos, o que aumenta tanto a vulnerabilidade ao fogo quanto o contato entre humanos, animais e vetores de doenças. Esse padrão ajuda a explicar os resultados para doenças zoonóticas e transmitidas por vetores, como a leishmaniose. Nos casos da leishmaniose e outras doenças, como a malária, os efeitos são ainda mais complexos. Em áreas altamente fragmentadas, o risco dessas doenças tende a aumentar. Por outro lado, quando a cobertura florestal, dentro e fora dos Territórios Indígenas, ultrapassa cerca de 40% do território municipal, esses riscos podem ser reduzidos. Ainda assim, os resultados variam conforme a combinação entre floresta, fragmentação e extensão dos territórios (Fig. 3).



Figura 3. Efeito da extensão dos Territórios Indígenas sobre a incidência de doenças em função da estrutura da paisagem no entorno. Em cenários com alta cobertura florestal no entorno (≈75%) e baixa fragmentação, o aumento da extensão dos Territórios Indígenas está associado à redução da incidência de doenças relacionadas ao fogo, possivelmente devido à menor emissão e maior absorção de poluentes atmosféricos. Em contraste, em paisagens com baixa cobertura florestal no entorno (≈15%), a relação com doenças zoonóticas e transmitidas por vetores torna-se não linear, refletindo a maior complexidade ecológica associada à fragmentação e às interações entre humanos, fauna e vetores. Esses resultados indicam que os efeitos dos Territórios Indígenas sobre a saúde humana dependem fortemente do contexto da paisagem, especialmente da cobertura florestal e da densidade de borda fora de seus limites.


Outro resultado importante diz respeito ao status jurídico dos Territórios Indígenas. Territórios indígenas oficialmente reconhecidos tendem a estar associados a menores níveis de doenças, especialmente aquelas relacionadas a queimadas (Fig. 2, b). Já as áreas sem reconhecimento legal apresentam maior incidência de doenças, o que, segundo as autoras, está ligado a maiores taxas de desmatamento, fogo e degradação ambiental.

Além disso, os resultados indicam que o reconhecimento legal fortalece a capacidade desses territórios de manter a integridade ambiental ao longo do tempo, reduzindo pressões externas como exploração ilegal de recursos e expansão agropecuária. Esse cenário contribui para a conservação de grandes áreas contínuas de floresta, essenciais para a regulação do clima local, a melhoria da qualidade do ar e a diminuição da exposição humana a poluentes e agentes infecciosos. Dessa forma, não apenas legitima os direitos territoriais dos povos indígenas, mas potencializa os benefícios ecológicos e sanitários dessas áreas, evidenciando que a segurança jurídica é um fator-chave para a efetividade dos Territórios Indígenas como aliados na promoção da saúde humana na Amazônia.

Segundo as autoras, a proteção dos direitos territoriais indígenas não é apenas uma questão de justiça social ou conservação ambiental, mas também uma estratégia concreta de saúde pública. Ao manter grandes áreas de floresta preservadas, esses territórios ajudam a reduzir a poluição do ar, limitar a propagação de incêndios e manter o serviço ecossistêmico de regulação de doenças promovido pelas florestas. As autoras destacam, no entanto, que os resultados devem ser interpretados com cautela. Diferenças na qualidade dos dados de saúde entre países, possíveis subnotificações e a influência de outros fatores, como condições socioeconômicas e estilo de vida,  também afetam a incidência de doenças. Ainda assim, o estudo reforça que políticas públicas voltadas à demarcação e proteção efetiva dos Territórios Indígenas, à redução do desmatamento e ao controle da fragmentação florestal podem gerar benefícios diretos à saúde humana. Mais do que isso, indicam que conservar florestas sob gestão indígena é uma solução baseada na natureza com múltiplos ganhos: ambientais, climáticos, sociais e sanitários.


Conteúdo: Priscila Mateus Couto 

Revisão: Stefany Lopes e Juliana Ciccheto

Revisão final: Ana Paula Lula CostaEditora desta edição: Daiana Reis




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Sobre as autoras:

Julia Barreto é uma pesquisadora focada nos impactos das mudanças humanas em ecossistemas tropicais sobre a biodiversidade e processos ecológicos, com abordagem aplicada à conservação. Atua atualmente com projetos de Conservação e Saúde Única (One Health). Possui doutorado em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa na Mata Atlântica, mestrado em Ecologia Aplicada sobre herbivoria na Amazônia e graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Suas áreas de atuação incluem biodiversidade, perda de habitat, ecologia de paisagens, ecologia aplicada e ciência de dados. 

Ana Palmeirim possui graduação e mestrado em biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua na área de Ecologia de Paisagens, com foco nos efeitos da perda e fragmentação de habitats. Realizou três pós-doutorados (Brasil, China e Reino Unido), nos quais pesquisou  os impactos ambientais em diferentes ecossistemas e interações entre espécies. Atualmente, participa de um projeto europeu que desenvolve pesquisas e ações de formação em países africanos de língua portuguesa. 


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