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Em paisagens agrícolas contínuas, as pragas podem se espalhar com muito mais facilidade, enquanto o aumento das coberturas florestais funciona como uma barreira natural que freia e reduz a disseminação de pragas.


Por: Juliana Ciccheto


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Vivemos um momento de forte expansão agrícola, aumento de pragas invasoras, espécies que se espalham rapidamente nas áreas de cultivo, encontram poucas dificuldades para se estabelecerem e acabam causando grandes prejuízos à produção, e também de urgência em reduzir o uso de pesticidas e agrotóxicos. Sabemos que as monoculturas, ou seja, grandes áreas agrícolas formadas por apenas uma única espécie de planta, como as plantações de soja, favorecem surtos de pragas e geram perdas nas colheitas. Em contraste, paisagens mais diversas tendem a ser mais resistentes às perturbações no ambiente, como mudanças causadas pelo uso intenso da terra, pelo desmatamento, pelas alterações no clima ou pelo manejo agrícola inadequado, fatores que desequilibram os sistemas naturais. Essa diversidade ambiental pode reduzir os prejuízos na produção e o custo econômico com o controle de pragas. No contexto da segurança alimentar, do desmatamento e da conservação ambiental, é importante compreendermos como as pragas se reproduzem e são transmitidas entre cultivos. Isso nos remete a uma pergunta essencial: “por onde as pragas realmente se deslocam dentro das áreas ou chamadas paisagens agrícolas?” E foi essa questão que motivou a pesquisadora Dra. Débora Rother e colaboradores a desenvolverem uma pesquisa sobre o tema.

O grupo de pesquisa analisou qual  distância a broca-da-cana-de-açúcar, uma pequena mariposa que causa grandes prejuízos em plantações, consegue se deslocar em uma paisagem de cana no interior de São Paulo, em uma região que fica entre dois biomas muito importantes do Brasil: a Mata Atlântica e o Cerrado. A região estudada é típica das áreas canavieiras do país, isto é, apresenta grandes faixas de plantio contínuo (monoculturas) cortadas por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada (Figura 1). Essas áreas de floresta, muitas vezes vistas apenas como restos ou “sobras” da paisagem, revelaram um papel estratégico: elas podem interromper rotas de dispersão da praga, funcionando como barreiras naturais e sustentáveis.



Figura 1. Imagem ilustrativa de sistemas agrícolas de cana-de-açúcar entrecortados por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada. A imagem não retrata a área de estudo; refere-se à área da Usina Nova Canabrava, localizada no Estado do Rio de Janeiro. Fonte: <https://revistarpanews.com.br/cana-de-acucar-no-estado-do-rio-de-janeiro-volta-a-crescer/>.


Usando ferramentas da ciência das redes (as mesmas usadas para entender como informações circulam na internet ou como vírus se espalham entre pessoas), Rother e pesquisadores descobriram que as pragas não se movimentam só de um campo para o outro de forma direta, elas seguem caminhos complexos, com conexões indiretas que só podem ser reveladas quando se analisa a paisagem como um sistema interligado. A mariposa estudada pela pesquisadora brasileira possui  larvas que perfuram o caule da cana-de-açúcar, causando danos que reduzem a produção de açúcar, álcool e biomassa, gerando grandes prejuízos econômicos. O ciclo de vida dessa praga da cana-de-açúcar acontece quase todo dentro da própria planta. Os insetos adultos vivem poucos dias e costumam voar principalmente à noite. Os machos conseguem se deslocar por distâncias de até 800 metros, orientando-se pelo cheiro liberado pelas fêmeas. (Figura 2).



Figura 2. Esquema gráfico do ciclo de vida da praga da broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis (Lepidoptera: Crambidae)). Fonte: Imagem criada pela revisora Maria Elizabeth Barbosa. 


Para a elaboração da sua pesquisa, a Dra. Rother e seus colaboradores construíram armadilhas com feromônios (substâncias químicas secretadas por um organismo que afetam o comportamento ou a fisiologia de indivíduos da mesma espécie) de fêmeas que atraiam os machos, registrando a presença ou ausência de machos em diferentes pontos de coleta. E aqui os pesquisadores partiram de uma hipótese central: áreas de floresta dificultam o deslocamento da praga. Isso porque as florestas abrigam mais inimigos naturais da broca, como formigas e aves, e a praga tende a evitar esses ambientes por risco de predação.

Para validar a hipótese, Rother e colaboradores mapearam toda a cobertura florestal da região com o uso de imagens de satélite. A partir daí, criaram 50 cenários com simulação computacional, variando a quantidade de floresta: de paisagens quase sem floresta a paisagens quase totalmente florestadas (Figura 3).



Figura 3. Cenários que ilustram a complexidade da paisagem variando a cobertura florestal natural e restaurada no nordeste do estado de São Paulo, Brasil. a) Paisagem empírica com 16,7% de cobertura florestal; b) Desmatamento simulado com 6,3% de cobertura florestal; e c) Reflorestamento simulado com 36,8% de cobertura florestal. A cobertura florestal é representada em verde e os pontos de amostragem (locais de armadilhas e nós na rede espacial) em vermelho. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 2. 


Essas simulações representaram cenários de desmatamento extremo e de restauração florestal intensa. Para entender como a praga se move, os pesquisadores transformaram a paisagem em um tipo de rede de caminhos possíveis: cada armadilha virou um ponto da rede (exemplificação na Figura 4). Em um cenário sem floresta, todos os pontos estariam conectados diretamente, como se a praga pudesse voar em linha reta para qualquer lugar (Figura 4, a). Quando havia florestas entre dois pontos, o caminho ficava mais longo, pois a praga teria que “contornar” essas áreas (Figura 4, b). Em alguns casos, áreas cercadas por floresta ficavam completamente isoladas, impedindo a chegada da praga (Figura 4, c). Assim, cada cenário de floresta gerava uma rede diferente, com caminhos mais curtos, mais longos ou até mesmo inexistentes. Para comparar essas redes, os pesquisadores usaram duas ideias simples: distância média entre os pontos, ou seja, quanto maior essa distância, mais difícil é para a praga se espalhar rapidamente; e número de grupos isolados, ou seja, se a paisagem se fragmenta em “ilhas” desconectadas, a praga não consegue alcançar todos os locais. Com essas redes em mãos, os cientistas rodaram simulações computadorizadas para ver como a infestação evoluiria ao longo do tempo. O objetivo era ver: quão rápido a praga se espalhava; quantos pontos acabavam infestados; e se a floresta conseguia atrasar ou até impedir a transmissão.



Figura 4. Diagrama conceitual representando a rede espacial em três paisagens hipotéticas com diferentes níveis de complexidade: a) sem floresta: rede totalmente conectada; b) com cobertura florestal existente: rede conectada, mas com variação na distância original entre os nós; e c) com cobertura florestal aumentada: rede desconectada. No diagrama, foi assumido um nó inicial para a dispersão da mariposa. A espessura do caminho de dispersão da mariposa representa o efeito da distância entre os nós. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 3. 


Os resultados mostram algo muito claro: quanto mais floresta existe na paisagem, mais difícil fica para a praga se espalhar. Quando os pesquisadores aumentaram a quantidade de floresta nos cenários simulados, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: os caminhos entre os pontos de infestação ficaram mais longos e a paisagem começou a se quebrar em áreas isoladas, onde a praga simplesmente não conseguia chegar. E isso não aconteceu de forma gradual ou “linear”. O efeito foi exponencial, ou seja, pouca floresta faz pouca diferença; muita floresta faz uma diferença enorme. No cenário real, com pouca cobertura florestal, a paisagem ainda se comporta como um espaço contínuo, permitindo que a praga se espalhe livremente. À medida que a floresta aumenta, porém, ocorre uma mudança estrutural importante: a paisagem começa a se fragmentar, formando blocos isolados. A partir desse ponto, novos incrementos de floresta passam a ter efeitos cada vez mais fortes, deixando grandes áreas fora do alcance da praga ao longo do tempo.

As simulações indicam que a floresta não apenas retarda a infestação da mairoposa broca, mas pode efetivamente limitá-la. Embora o avanço da praga se torne mais lento, o efeito mais relevante é a redução do número de áreas atingidas. Em paisagens mais florestadas, a infestação deixa de ocorrer de maneira homogênea: enquanto alguns locais são atingidos rapidamente, outros demoram muito mais ou nunca chegam a ser infestados. Isso acontece porque a floresta bloqueia múltiplos caminhos ao mesmo tempo, dificultando a dispersão em várias direções. O estudo também mostra que é possível prever com boa precisão por onde a praga tende a se espalhar, mesmo usando poucas informações sobre a paisagem. 

A pesquisa da Dra. Rother reforça que o controle de pragas não depende apenas do uso de inseticidas ou da introdução de pragas invasoras, mas também da forma como a paisagem é organizada. Paisagens simplificadas, dominadas por monoculturas, funcionam como verdadeiras autoestradas para pragas especializadas, enquanto paisagens mais diversas, com florestas e áreas naturais, se comportam como labirintos que dificultam o avanço e reduzem o alcance das infestações. Isso demonstra que o risco de infestação depende da estrutura completa das conexões na paisagem.


Conteúdo: Juliana Ciccheto

Revisão: Stefany Lopes e Maria Elizabeth Barbosa

Revisão final: Ana Paula Lula

Editora desta edição: Juliana Ciccheto



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Leia o artigo na íntegra:


Sobre a autora:

Conheça mais sobre a Dra. Débora e sua pesquisa em seu site.


O Projeto ‘Mulheres na Ecologia’ conecta comunicadoras e cientistas de todo o Brasil para fortalecer uma ciência mais diversa, acessível e representativa.



Por: Elvira D’Bastiani


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Criado em 2020, no início da pandemia de COVID-19, o projeto “Mulheres na Ecologia” surgiu a partir de uma percepção crítica e de um questionamento incômodo, em um contexto marcado por cortes sucessivos de verbas na ciência brasileira, desmonte institucional, negacionismo científico e desinformação: “por que os nomes mais lembrados na Ecologia ainda são, em sua maioria, masculinos?” Dessa inquietação nasceu a proposta de construir uma iniciativa comprometida com a valorização de mulheres historicamente silenciadas, com a resistência aos ataques à ciência e com o enfrentamento do negacionismo, além de contribuir para a formação de novas referências científicas. Assim, o projeto busca fortalecer uma ecologia mais inclusiva, democrática e socialmente relevante no Brasil.


Atualmente, o projeto conta com uma equipe diversa de voluntárias, formada por pesquisadoras em diferentes estágios da carreira acadêmica (desde a graduação até o pós-doutorado) e por profissionais de setores não acadêmicos. Unidas por um propósito comum, as integrantes do coletivo buscam fortalecer a representatividade feminina na ciência e ampliar a visibilidade de mulheres cientistas, realçando as pesquisas e ações lideradas por elas no Brasil e buscando fomentar o aumento da diversidade na área da ecologia, seja de raça, etnia ou gênero.



As principais frentes do projeto são a comunicação científica, voltada à comunidade acadêmica, e a divulgação científica, direcionada ao público em geral, com linguagem acessível e presença ativa nas redes sociais. Essas duas frentes se complementam ao buscar democratizar o acesso ao conhecimento científico e mostrar a importância das pesquisas desenvolvidas por mulheres brasileiras. Democratizar o acesso ao conhecimento científico significa tornar a ciência compreensível, acessível e disponível para todas as pessoas, e não apenas para especialistas, pesquisadores ou grupos privilegiados, permitindo que a sociedade participe, questione e se beneficie do saber científico. É nesse sentido que o projeto “Mulheres na Ecologia” busca contribuir, ampliando as vozes, as referências e as formas de acesso à ciência ecológica brasileira historicamente silenciadas.

Entre as principais atividades editoriais do “Mulheres na Ecologia” estão:


Biografias - um espaço que tem como objetivo dar visibilidade às mulheres ecólogas por meio da divulgação de suas trajetórias acadêmicas e profissionais, incentivando sua permanência e valorização na carreira científica. Semanalmente, às quartas-feiras, compartilhamos novas biografias em nossas redes sociais;


Ecologia em Pauta - uma linha editorial em que produzimos comunicados de imprensa (press releases) sobre artigos científicos indicados pelas ecólogas do projeto e por pessoas que acompanham nossas ações. O objetivo é traduzir resultados e debates da ciência ecológica para uma linguagem acessível, aproximando o conhecimento científico da comunidade não científica e ampliando seu alcance e impacto;


Representatividade - essa linha editorial é voltada à divulgação de temas relacionados à inclusão de grupos historicamente sub-representados e ao fortalecimento da diversidade nos espaços profissionais da ecologia. A iniciativa visa demonstrar a importância da diversidade na construção de ambientes científicos mais equitativos, diversos e socialmente responsáveis;


Ecologia - nessa linha editorial promovemos o conhecimento e o debate sobre diferentes temas da ecologia, como conservação, biodiversidade, ecossistemas, mudanças climáticas, entre outros. Os conteúdos baseiam-se na divulgação de pesquisas e debates científicos atuais, contribuindo principalmente para a construção de conhecimento para o público e para a formação de jovens e futuros profissionais;


Ecologia para Crianças - essa linha editorial  tem como propósito aproximar o público infantil dos temas ecológicos de forma lúdica, acessível e educativa. Por meio da divulgação de conteúdos interativos e de atividades criativas, buscamos estimular a curiosidade, o cuidado com a natureza e a construção do pensamento crítico desde a infância.


Por meio dessas linhas editoriais, jovens cientistas, colaboradoras do “Mulheres na Ecologia”, apresentam e discutem iniciativas que promovem equidade, diversidade e inclusão, estimulando e inspirando mudanças nas instituições acadêmicas brasileiras e em outros espaços profissionais. O projeto também organiza eventos, palestras e rodas de conversa, fortalecendo a troca de experiências e estimulando debates sobre ciência, equidade e representatividade. Neste ano de 2026, contamos com uma nova linha editorial do projeto, o ‘Podcast: Ecologia por Elas’, que é um podcast que conecta o conhecimento científico à sociedade, abordando crises ambientais, cenários políticos e sociais e o protagonismo das mulheres na construção de futuros sustentáveis no Brasil. Em tempos de desvalorização da ciência, da educação e de aumento da desinformação, o “Mulheres na Ecologia” busca ampliar o interesse e o reconhecimento da ciência ecológica brasileira em temas socioambientais urgentes, traduzindo-os com clareza, empatia e compromisso social. Diferente de muitos podcasts que abordam ciência de maneira técnica ou centrada em especialistas de grandes centros, nossa proposta é escutar e valorizar as vozes de jovens cientistas de diferentes regiões do Brasil. Queremos mostrar que a ciência é feita por mulheres de diferentes raças, origens e etnias e que seus saberes também são formas de produzir conhecimento ecológico. Na primeira temporada, teremos 12 episódios e, em cada um, serão convidadas de duas a três mulheres que trabalham com ecologia para discutir temas relacionados à conservação ambiental, à crise climática e às perspectivas futuras do fazer ecologia.


Neste ano, também publicamos nosso primeiro artigo científico na revista Scientific Reports. Na pesquisa “Barreiras estruturais impulsionam a desigualdade de gênero ao longo das carreiras acadêmicas na ecologia brasileira” (título em inglês: Structural barriers drive gender inequality across academic careers in Brazilian ecology), mostramos que a desigualdade de gênero na ecologia brasileira transpassa diversos fatores interconectados, relacionados a questões pessoais, institucionais e estruturais que dificultam a representação, a retenção e a produtividade das mulheres ao longo das etapas da carreira acadêmica. Disparidades persistentes nas responsabilidades de cuidado, no acesso a financiamento para pesquisas, nos cargos de liderança e na exposição à discriminação são agravadas pela falta de percepção masculina da desigualdade de gênero, o que leva à falta de apoio institucional e de políticas públicas. Nesse estudo, mostramos que enfrentar esses desafios exige uma ação coordenada que combine regulamentações institucionais inclusivas, licença parental equitativa, mentoria proativa e engajamento genuíno por parte de líderes masculinos. Esforços para coletar e analisar dados por gênero, raça, origem socioeconômica e outros grupos historicamente sub-representados são extremamente importantes para orientar intervenções baseadas em evidências, promover a diversidade e fomentar um ambiente de pesquisa no qual todos possam prosperar. Por fim, chamamos a atenção para o fato de que reconhecer e desmantelar as barreiras sistêmicas no meio acadêmico brasileiro é um pré-requisito para fortalecer a inovação científica e a pesquisa ecológica no país.


Diante dos desafios estruturais e das desigualdades evidenciadas ao longo das trajetórias acadêmicas, a busca pela equidade de gênero se afirma como uma causa que tem como premissa a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e representativa. O Projeto “Mulheres na Ecologia” convida pesquisadores, educadores, gestores e o público em geral a participar dessas ações, a compartilhar conhecimento e a apoiar a participação de mulheres na ciência. Cada contribuição ajuda a fortalecer a representatividade feminina na ciência, inspirar futuras gerações e promover mudanças nas instituições acadêmicas e na sociedade. Juntas, essas ações estão transformando a ecologia brasileira em um espaço mais diverso, acessível e acolhedor, onde diferentes vozes e experiências são valorizadas e reconhecidas, independentemente da sua origem.


Conteúdo: Elvira D’Bastiani

Revisão: Juliana Ciccheto e Ana Paula Lula

Editora desta edição: Juliana Ciccheto






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Quem é Elvira?

Ecóloga quantitativa, com foco em ecologia e evolução de doenças infecciosas. Atualmente, realiza seu pós-doutorado no laboratório da professora Dra. Ana Bento, no Departamento de Saúde Pública e Ecossistêmica da Cornell University, em Nova Iorque, Estados Unidos. Sua pesquisa investiga como as interações entre patógenos e hospedeiros moldam e são moldadas por mecanismos e processos ecológicos e evolutivos em diferentes ambientes e escalas. Atualmente, está focada em compreender a dinâmica ecológica e evolutiva de vírus transmitidos por mosquitos que causam doenças em humanos e em animais silvestres nas Américas.


Saiba mais sobre a Elvira em seu site.





Pesquisa investiga como a mudança de hospedeiros por parasitos pode ser facilitada por mudanças no ambiente e como isso pode aumentar o aparecimento de doenças infecciosas.


Ecóloga Elvira D'Bastiani

Preparado por Tuany Alves - Jornalista do Projeto Mulheres na Ecologia

Revisado por Myrna Elis - Revisora do Projeto Mulheres na Ecologia

O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) mostrou que as mudanças climáticas já afetam muitas espécies em várias regiões do mundo. Mudanças no uso da terra, urbanização e crescente conectividade global - que alteram os padrões de distribuição das espécies - apontam um outro problema: a facilidade dos vírus, bactérias e parasitos explorarem novos ambientes e emergir ou reemergir doenças infecciosas.


Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.
Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.

A diversidade de parasitos no nosso planeta é imensa e - embora estejam bem adaptados a seus hospedeiros - estes organismos têm capacidades pré-existentes e podem infectar outras espécies de hospedeiros aos quais podem não estar expostos, como por exemplo o ser humano.


Foto: Ilustração do vírus Monkeypox. Crédito: peterschreiber.media
Foto: Ilustração do vírus Monkeypox. Crédito: peterschreiber.media

Um animal que é normalmente associado à transmissão de doenças - porém na verdade é apenas um dos diversos hospedeiros que um vírus pode ter - é o macaco. Para se ter uma ideia, ele é até mesmo associado à varíola. A transmissão da doença não está relacionada a eles, porém o nome - varíola dos macacos - se popularizou após a descoberta inicial do vírus em macacos em um laboratório dinamarquês em 1958.


O surto atual de varíola, que já atinge mais de 75 países, no entanto foi atribuído à contaminação de pessoa para pessoa, com contato próximo. Além disso, embora o animal reservatório do vírus seja desconhecido, os principais “candidatos” são os pequenos roedores, como os esquilos e ratos. Esse exemplo mostra a importância de entendermos quais são os mecanismos envolvidos na dinâmica ecológica e evolutiva dos parasitos, uma vez que a incorporação de uma nova espécie de hospedeiro por um parasito em seu repertório pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento.


O hóspede indesejado


Como podemos saber quem será a ‘próxima vítima’ de um parasito? Não há uma resposta imediata e simples para isso, porém um estudo realizado pela pesquisadora Elvira D’Bastiani, em seu doutorado em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba, mostra que há alguns fatores que estão relacionados e podem ajudar a responder essa pergunta.


Foto: Zoneamento de transmissão. Acervo Pixabay.
Foto: Zoneamento de transmissão. Acervo Pixabay.

A pesquisadora investigou como a mudança de hospedeiros pode afetar a ecologia e a evolução de comunidades de parasitos ao longo de milhares de anos. Segundo D’Bastiani, a ideia era entender se o arcabouço teórico que a equipe tinha, quando implementado em um modelo teórico (simulação), poderia gerar cenários similares aos encontrados na vida real. A equipe também queria entender como os eventos de mudança de hospedeiro - sendo este mediado pela similaridade da história evolutiva dos hospedeiros - pode alterar os padrões ecológicos e evolutivos dos parasitos de sapos, de roedores, de peixes, de aves e de alguns mamíferos incluindo o ser humano.


Como estudar estes padrões atuais a partir de informações de milhares de anos atrás?


Como consequência do resultado da sua pesquisa de mestrado, Elvira propôs, então, às suas orientadoras de doutorado Sabrina Araújo e Karla Campião, investigar como que a mudança de hospedeiro acontece, sendo mediada pela distância evolutiva (entre espécies) dos hospedeiros de uma comunidade ecológica. Como observar isso na vida real é impossível - uma vez que é um processo de milhares de anos -, as pesquisadoras elaboraram um modelo teórico - integrando informações das espécies, criando cenários virtuais e comparando os resultados das simulações com dados coletados na natureza por outros pesquisadores.


A ideia dessa pesquisa surgiu a partir da curiosidade de Elvira sobre essa dinâmica de interação entre um hóspede, não tão desejado, e o hospedeiro. “As interações, principalmente de parasito-hospedeiro, me intrigam, principalmente em entender quais são as causas e quais são as consequências dessas associações. Por isso, investigamos como os indivíduos de parasitos se dispersam, encontram novos hospedeiros, e infectam diferentes espécies de hospedeiros utilizando informações pré-existentes ou capacidades que já possuem”, informa.


Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.
Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.

Segundo a pesquisadora, para desvendar as causas e as consequências das associações entre parasito-hospedeiro, na maioria das vezes, o cientista vai para a natureza e coleta os parasitos de diferentes espécies de um grupo, como por exemplo diferentes espécies de sapos. “Porém, tudo depende da pergunta e do grupo de parasitos que optou por estudar. No nosso caso, como se trata de um evento que é super difícil de observar na natureza - a mudança de hospedeiro - utilizamos nove comunidades de parasitos coletados por outros pesquisadores, e desta forma pudemos explorar como a causa (evento de mudança de hospedeiro) pode influenciar (consequência) a ecologia e a evolução das espécies de parasitos que analisamos”, informa.


Ela também conta que entender a dinâmica ecológica e evolutiva das associações é complexo e contém muitos detalhes, porém com o auxílio da modelagem matemática aplicada é possível explorar um pouco sobre como essas dinâmicas podem ocorrer. “O nosso modelo é uma simplificação do que pode estar acontecendo na natureza”, destaca.


Resultados - Modelo chave e fechadura?


Mas afinal, qual foi o resultado? A pesquisa identificou que quanto mais eventos de mudança de hospedeiro ocorrem, maior será a similaridade de espécies de parasitos entre as espécies de hospedeiros. Para explicar isso, Elvira compara as espécies com uma chave e uma fechadura. Segundo a pesquisadora, o parasito precisa encontrar condições específicas para sobreviver, produzir e se tornar uma ‘chave’, a associação precisa “estar alinhada” para que se tenha um match e a porta se abra.


Outro achado do estudo foi em relação a amplitude de escala geográfica. Segundo Elvira, se você está caminhando em uma floresta pequena que é a casa de antas ou capivaras, existe mais chance de um carrapato dentro dessa floresta te picar, do que se você andar em uma floresta gigante onde existem diversas barreiras em que estes mamíferos não conseguem andar e consequentemente a chance de você ser picado por um carrapato é muito menor. Ou seja, em escala espacial menor (locais) as comunidades de parasitos simuladas tendem a ter maior intensidade de mudança de espécie de hospedeiros, por outro lado - comunidades de parasitos em escalas espaciais maiores (regionais) - tendem a ter menor intensidade de mudança de espécie de hospedeiros.


“Isso acontece devido às barreiras de dispersão, que podem dificultar ou facilitar a interação entre as espécies. Lembrando que a barreira para dispersão depende, por exemplo, da espécie que estamos estudando, uma vez que o que pode ser barreira para uma espécie pode não ser para uma outra espécie”, informa Elvira. “A nossa pesquisa gerou insights e outras perguntas. Agora partimos para tentar responde-las”.


Foto: Zoneamento de transmissão. Acervo Pixabay.
Foto: Zoneamento de transmissão. Acervo Pixabay.

Foco na saúde


A mudança climática sempre foi um dos principais catalisadores para as novas oportunidades de interação entre patógenos e hospedeiros, porque perturba a estrutura do ecossistema local e permite que as espécies de patógenos e hospedeiros se movam para diferentes regiões. Uma vez que as espécies de patógenos se associam a novos hospedeiros, novas “variantes” podem surgir ou até mesmo reemergir, cada uma com novas capacidades de causar infecções.


Foto: Alterações Climáticas. Acervo Pixabay.
Foto: Alterações Climáticas. Acervo Pixabay.

Nesse sentido, muitas espécies que antes eram restritas a áreas específicas agora estão expandindo sua distribuição e alterando a composição das comunidades ecológicas devido a intensificação das mudanças antrópicas e climáticas.


Assim, um modelo teórico em que os eventos de mudança de hospedeiro são mediados pela proximidade evolutiva entre espécies de hospedeiros pode ajudar a predizer as associações parasitárias e o surgimento de novos patógenos ao longo do tempo. “Representa um passo importante para a compreensão da diversificação das espécies de parasitos”, ressalta a pesquisadora.


“Dessa forma, entender a dinâmica destes organismos (patógeno-hospedeiro) pode ajudar em muitas questões, incluindo na relação da medicina com a ecologia de doenças infecciosas, no tratamento de pacientes (medicina evolutiva), na aplicação de biologia evolutiva para gestão territorial, gerar insights para a elaboração de políticas de saúde pública dentre outras questões”, informa Elvira.


Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.
Foto: Acervo Elvira D'Bastiani.

Ficha cadastral da pesquisadora:


Nome completo: Elvira D'Bastiani

Titulação: doutorado em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Título do Projeto: Effect of host-switching on the ecological and evolutionary patterns of parasites (Status: Major review in Systematic Biology - journal of the Society of Systematic Biologists)

Instagram: @elviradbastiani

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