Espécies nativas do bioma Caatinga demonstram potencial para eliminar larvas, ovos e até indivíduos adultos do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue.
Por: Alice Meira Gomes Dórea
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Um estudo liderado pela pesquisadora Dra. Karine da Silva Carvalho mostrou que diversas plantas da Caatinga possuem compostos naturais capazes de atuar contra diferentes fases do ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti, o mosquito da dengue (Figura 1). A pesquisa identificou que mais de 50 espécies vegetais desse bioma podem matar larvas do mosquito, impedir o desenvolvimento de pupas, reduzir a postura de ovos e até comprometer a sobrevivência de mosquitos adultos. Os resultados reforçam a importância da biodiversidade de plantas da Caatinga como fonte de soluções naturais para o controle do mosquito responsável pela transmissão da dengue e de outras doenças, como zika e chikungunya.

Figura 1. Mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana, é facilmente identificado pelas listras brancas no corpo e nas pernas, além do hábito de picar principalmente durante o dia. Fonte: WikiImages, retirada do Pixabay.
Entre os principais resultados do trabalho da Dra. Karine e colaboradores, está a identificação de plantas da Caatinga cujos óleos essenciais apresentam alto potencial inseticida, apontando alternativas promissoras para o controle do mosquito da dengue. Esses achados se tornam ainda mais relevantes diante da resistência do Aedes aegypti aos inseticidas químicos e agrotóxicos atualmente utilizados, o que tem limitado a eficácia das estratégias convencionais de controle. Nesse contexto, a Caatinga ganha destaque como fonte estratégica de soluções baseadas na natureza.
Bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga é marcada por longos períodos de seca, altas temperaturas e baixa disponibilidade de água (Figura 2). Embora frequentemente associada a uma paisagem pobre, trata-se de um ambiente com grande diversidade vegetal, ainda pouco explorada do ponto de vista científico. Para sobreviver ao clima semiárido (caracterizado por pouca chuva ao longo do ano e altas temperaturas), as plantas da Caatinga desenvolveram uma série de adaptações, ou seja, características que aumentam suas chances de sobrevivência. Entre essas adaptações destaca-se a caducidade foliar, que consiste na queda das folhas durante a seca, reduzindo a perda de água. Outras estratégias incluem folhas menores ou mais espessas, presença de espinhos e alterações na forma das plantas, que ajudam a conservar água e proteger contra herbívoros. Além dessas adaptações visíveis, muitas plantas produzem substâncias químicas de defesa, conhecidas como metabólitos secundários. Esses compostos não participam diretamente do crescimento da planta, mas atuam como proteção contra insetos, microrganismos e condições ambientais extremas. Alguns desses metabólitos, como, por exemplo, óleos essenciais, apresentam efeito inseticida, ou seja, são capazes de matar ou interferir no desenvolvimento de insetos.
É importante destacar, no entanto, que nem toda planta que produz óleo essencial tem ação inseticida. Óleos essenciais são misturas naturais de compostos voláteis responsáveis, por exemplo, pelo aroma das plantas. Apenas alguns deles contêm substâncias que realmente prejudicam o mosquito, e essa eficácia varia conforme a espécie vegetal, a parte da planta utilizada e a concentração do óleo.

Figura 2. Paisagem típica da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro localizado principalmente na região Nordeste do Brasil. É caracterizada por clima semiárido, com longos períodos de seca, altas temperaturas e vegetação adaptada à escassez de água, como plantas com folhas reduzidas ou que perdem as folhas durante a seca. Fonte: gov.br – ICMBio.Disponível em: <https://www.gov.br/icmbio/pt-br/centrais-de-conteudo/parquenacionalmatogrossense-jpg>.
O mosquito Aedes aegypti possui um ciclo de vida dividido em quatro fases, ovo, larva, pupa e adulto (Figura 3), o que facilita sua adaptação e dispersão em diferentes ambientes. As fêmeas transmitem os vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela, responsáveis por graves problemas de saúde pública no Brasil e no mundo. Como ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos para todas essas doenças, o controle do mosquito continua sendo a principal estratégia de prevenção. O problema é que o uso contínuo de inseticidas químicos elimina os mosquitos mais sensíveis, permitindo que os indivíduos naturalmente mais resistentes sobrevivam e se multipliquem, além de causar impactos negativos ao meio ambiente e a outros organismos. Por isso, cresce o interesse por inseticidas de origem vegetal, que tendem a ser menos tóxicos, mais biodegradáveis e potencialmente mais sustentáveis.

Figura 3. Etapas do ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti, que inclui as fases de ovo, larva, pupa e adulto. Em condições favoráveis de temperatura e água, o desenvolvimento do ovo até o mosquito adulto ocorre em cerca de 7 a 10 dias, o que contribui para a rápida proliferação da espécie. Fontes: Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e Centers for Disease Control and Prevention (CDC).
Para investigar o potencial de plantas que possuem compostos naturais capazes de atuar contra o mosquito, Dra. Karine e colaboradores analisaram estudos científicos publicados ao longo de dez anos sobre plantas da Caatinga com ação contra o Aedes aegypti. Eles reuniram informações sobre quais espécies foram testadas, as partes das plantas que foram utilizadas (como folhas, sementes ou cascas) ou óleos essenciais e como estes atuaram sobre o mosquito, além dos compostos químicos que estavam associados ao efeito inseticida. Também foram avaliados os possíveis efeitos tóxicos dessas substâncias em outros organismos, como outros insetos e pequenos animais.
Os resultados mostraram que a grande diversidade vegetal da Caatinga favorece a descoberta de compostos naturais eficazes principalmente contra as larvas do mosquito. As condições extremas do bioma estimulam a produção de substâncias químicas de defesa, como compostos fenólicos (moléculas com ação antioxidante e tóxica para insetos) e ácidos graxos, que são substâncias presentes em óleos vegetais capazes de interferir no desenvolvimento e na sobrevivência dos insetos. Alguns grupos de plantas se destacaram, como plantas dos gêneros Abarema, Croton, Myracrodruon, Lippia e Syagrus. Espécies bem conhecidas pelas populações locais, como a aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) (Figura 4), o licuri (Syagrus coronata) e diferentes tipos de velame (Croton spp.), apresentaram forte ação contra o Aedes aegypti. Esses achados reforçam o potencial da Caatinga como fonte de soluções naturais e sustentáveis no combate à continuação do ciclo do mosquito, ao mesmo tempo em que destacam a importância da conservação desse bioma único.

Figura 4. Myracrodruon urundeuva, conhecida popularmente como aroeira-do-sertão, espécie nativa da Caatinga amplamente utilizada na medicina tradicional e aqui destacada pelo seu potencial inseticida e presença de óleos essenciais capazes de atuar contra o mosquito Aedes aegypti. Foto: Liliane Lima/NEMA-UNIVASF.
Um aspecto curioso revelado pelo estudo é que a época do ano influencia diretamente a eficácia inseticida dessas plantas. Durante o período chuvoso, quando há maior disponibilidade de alimento para insetos que se alimentam de plantas (os chamados insetos herbívoros), as espécies da Caatinga intensificam a produção de metabólitos secundários. Esse aumento na produção química faz com que os extratos obtidos das plantas durante a estação chuvosa sejam mais tóxicos para as larvas do Aedes aegypti do que aqueles coletados no período seco. Dessa forma, o resultado evidencia como as condições ambientais da Caatinga moldam o potencial inseticida de sua flora ao longo do ano.
Os autores ressaltam ainda que, embora muitos mecanismos de ação dessas substâncias já sejam conhecidos, ainda são necessários estudos mais detalhados para isolar os compostos ativos, ou seja, identificar exatamente quais moléculas são responsáveis pelo efeito inseticida, e para aprofundar as avaliações de seletividade (capacidade de afetar apenas o mosquito) e de toxicidade a longo prazo, especialmente em organismos que não são alvo do controle.
Como perspectiva futura, o estudo aponta que a biodiversidade da Caatinga representa um recurso estratégico para o desenvolvimento de bioinseticidas (produtos naturais que substituem inseticidas sintéticos, reduzem impactos ambientais e diminuem a resistência dos mosquitos). No entanto, os pesquisadores alertam que ainda existem desafios importantes, como a produção em larga escala, a disponibilidade de biomassa vegetal e o desenvolvimento de métodos de extração e processamento que tornem viável o uso comercial desses compostos.
As descobertas abrem caminho para novas pesquisas voltadas ao isolamento, validação e síntese de moléculas bioativas (substâncias naturais capazes de matar ou inibir o desenvolvimento do mosquito), à ampliação dos testes de toxicidade em organismos não-alvo, ou seja, organismos que não são o mosquito) e ao desenvolvimento de formulações seguras para uso em programas de saúde pública. Dessa forma, fortalecer o conhecimento científico sobre as plantas da Caatinga não é apenas uma iniciativa acadêmica, mas um passo essencial para transformar um bioma historicamente negligenciado em protagonista de soluções inovadoras para a saúde global.
Ao revelar o potencial inseticida de uma flora marcada por alto grau de endemismo, isto é, espécies que só existem nesse bioma, o estudo reforça a importância de investir em ciência, conservação e uso sustentável da biodiversidade brasileira. A Caatinga se destaca, assim, como uma fonte estratégica para o desenvolvimento de inseticidas naturais mais eficazes, seguros e ambientalmente responsáveis no enfrentamento das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
Conteúdo: Alice Dórea
Revisão: Juliana Ciccheto e Rita de Cássia
Revisão final: Fernanda Souza
Editoras desta edição: Juliana Ciccheto e Daiana Pelegrino
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Sobre a autora:
Bióloga, mestre em Ciências Ambientais pela UESB e doutora em Ciências pelo Instituto Aggeu Magalhães (FIOCRUZ-PE), com experiência em parasitologia e entomologia, especialmente no estudo de insetos vetores. Desde 2021, atua como docente no Instituto Federal da Paraíba (IFPB), onde leciona na área ambiental, desenvolve pesquisas sobre solos do semiárido e coordena o curso Técnico em Meio Ambiente.




