top of page

Pesquisas concentradas em poucas regiões do país dificultam a compreensão da real diversidade de peixes dos riachos brasileiros: muitas das espécies continuam "invisíveis" para a ciência. 


Por: Andreza Medeiros


Faça o download deste Press Release clicando aqui


Um estudo coordenado pela pesquisadora Dra. Nara Tadini Junqueira analisou como as pesquisas sobre peixes de riachos vêm sendo realizadas no Brasil e identificou importantes lacunas no conhecimento científico sobre esses ambientes aquáticos. Na pesquisa,  os autores revisaram artigos científicos publicados sobre amostragem de peixes em riachos brasileiros, avaliando aspectos como a distribuição geográfica dos estudos selecionados e as técnicas aplicadas na coleta de dados. 

Os resultados revelam que, embora o número de estudos tenha aumentado ao longo dos últimos anos (Fig. 1), ainda existem limitações importantes que dificultam compreender a real diversidade de espécies presentes em ambientes de água doce. A pesquisa também revelou uma forte concentração dos estudos nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, enquanto regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste permanecem pouco investigadas. Junqueira e colaboradores acreditam que essa desigualdade geográfica pode fazer com que muitas espécies e padrões ecológicos ainda sejam desconhecidos pela ciência. Logo, essas limitações podem subestimar, ou seja, calcular por baixo, a diversidade de espécies de peixes e dificultar comparações com outros estudos por falta de dados. 


Figura 1. Crescimento do número de estudos sobre assembleias de peixes, ou seja,  conjunto de espécies que vivem e interagem em um mesmo riacho, realizados no Brasil ao longo do tempo. Os gráficos mostram: (a) o aumento cumulativo do número de artigos científicos publicados; (b) de riachos analisados; e (c) de locais ou sítios amostrados identificados nesta revisão. Os dados revelam a expansão das pesquisas sobre a biodiversidade de peixes em riachos brasileiros nos últimos 15 anos. 


Para realizar esta pesquisa e chegar a estes resultados, a Nara e colaboradores fizeram um levantamento da literatura a partir de trabalhos já publicados sobre peixes de riachos brasileiros. Esse tipo de pesquisa, conhecido como revisão da literatura, é importante porque permite reunir e analisar o conhecimento científico produzido ao longo dos anos sobre um determinado tema. A partir disso, os pesquisadores conseguem compreender o chamado “estado da arte”, expressão utilizada na ciência para descrever o panorama mais atualizado do conhecimento disponível em uma área: o que já se sabe, quais métodos são mais utilizados, quais regiões foram mais estudadas e quais perguntas ainda permanecem sem resposta.

Os pesquisadores buscaram artigos científicos em bases de dados online como Web of Science (anteriormente denominada ISI Web of Knowledge), o SciELO e o Scopus, reunindo estudos publicados até 2016. Inicialmente, mais de mil artigos foram encontrados, mas apenas os que atendiam aos critérios definidos pelos autores foram incluídos na análise final (Fig. 2). Foram avaliadas informações como localização dos estudos, número de riachos analisados, quantidade de pontos de coleta, espécies registradas e os métodos utilizados para capturar os peixes.


Figura 2. Fluxograma detalhando os critérios de seleção das publicações e o número de estudos derivados em cada etapa. As buscas bibliográficas identificaram, no total, 1152 artigos, dos quais 88 foram selecionados. As fases de filtragem incluíram: remoção de estudos não acessíveis, estudos duplicados em diferentes bases de dados e estudos que não continham todas as informações desejadas. 


Outro ponto destacado pelo estudo é a grande variedade de métodos utilizados nas pesquisas. Foram registradas 11 técnicas diferentes de amostragem, com predominância da pesca elétrica, da peneira metálica e das redes de arrasto. A falta de padronização dificulta a comparação entre estudos realizados em diferentes regiões e períodos. Além disso, muitos trabalhos analisados tiveram curta duração, geralmente cerca de um ano, e envolveram poucos riachos ou poucos pontos de coleta.

Para os pesquisadores, esse baixo esforço amostral pode fazer com que parte da biodiversidade passe despercebida. Em estudos sobre biodiversidade, quanto maior o número de coletas e áreas analisadas, maiores as chances de encontrar espécies raras ou menos abundantes. Uma forma simples de entender isso é imaginar que, quanto mais vezes se observa um ambiente, mais espécies diferentes tendem a aparecer. Esse princípio é representado pela chamada ”curva de rarefação", uma ferramenta usada pelos cientistas para avaliar se a quantidade de amostragens foi suficiente para representar a diversidade de espécies de um local. Quando poucas coletas são realizadas, ou quando o esforço de amostragem é baixo,  a curva indica que novas espécies ainda poderiam ser encontradas caso o estudo continuasse. 

Por fim, o estudo mostra a ampliação do conhecimento sobre a biodiversidade aquática do país; no entanto, os autores alertam que esse avanço ainda ocorre de forma desigual. Por exemplo, a grande diversidade de métodos utilizados e o baixo esforço amostral em muitos trabalhos dificultam comparações entre estudos e podem comprometer a compreensão real da biodiversidade desses ambientes. Essas limitações podem fazer com que diversas espécies permaneçam “invisíveis” para a ciência: especialmente espécies raras, pouco abundantes ou presentes em regiões ainda pouco estudadas. Isso significa que a diversidade de peixes dos riachos brasileiros pode ser ainda maior do que a atualmente registrada. Por isso, o estudo reforça a importância de ampliar pesquisas em áreas com poucas informações e estabelecer métodos padronizados de amostragem, contribuindo para retratos mais precisos da biodiversidade e para estratégias mais eficientes de conservação dos ecossistemas aquáticos brasileiros.


Conteúdo: Andreza Medeiros

Revisão: Rita de Cássia e Juliana Ciccheto

Revisão final: Fernanda Souza

Editora desta edição: Daiana Reis


Saiba mais



Sobre a autora:

A Dra. Nara Tadini Junqueira é uma pesquisadora com foco em ecologia de comunidades aquáticas, especialmente no estudo de assembleias de peixes de água doce, com abordagem voltada à conservação da biodiversidade e à análise de padrões ecológicos. Atua em pesquisas sobre a ecologia de riachos e a estrutura e dinâmica de comunidades de peixes em ecossistemas lóticos. Possui formação acadêmica na área de ecologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), onde desenvolve estudos voltados à ictiologia e ecologia aquática. Suas principais áreas de atuação incluem biodiversidade, ecologia de comunidades, ecologia de peixes de água doce, conservação e monitoramento ambiental.


Estudo inédito comprova que a proteção de áreas ancestrais reduz surtos e garante  a qualidade ambiental

Por: Priscila Mateus


Faça o download deste Press Release clicando aqui


Territórios indígenas possuem um papel fundamental não apenas na conservação da biodiversidade, mas também na proteção da saúde humana na Amazônia, especialmente quando são oficialmente reconhecidos e mantidos em áreas com florestas bem preservadas. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pelas cientistas Dra. Julia Barreto e Dra. Ana Filipa Palmeirim, publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature Portfolio.

As pesquisadoras analisaram quase duas décadas de dados (de 2001 a 2019) sobre diferentes problemas de saúde na Amazônia, incluindo doenças respiratórias (que afetam os pulmões), cardiovasculares (relacionadas ao coração) e zoonóticas, aquelas transmitidas de animais para humanos, além das transmitidas por vetores, como mosquitos. O estudo abrangeu toda a Pan-Amazônia, região que inclui a floresta amazônica distribuída por nove países: Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, com dados em escala municipal cobrindo mais de 1.700 municípios.

Para entender como o ambiente influencia a saúde das populações, a equipe combinou diferentes tipos de informação. Foram utilizados dados de saúde pública, registros de incêndios florestais e estimativas de poluição do ar, especialmente a concentração de partículas finas conhecidas como PM2.5, que podem penetrar profundamente nos pulmões e até alcançar a corrente sanguínea. O estudo também levou em conta que a poluição gerada por queimadas pode se deslocar por centenas de quilômetros, afetando regiões muito além do local onde o fogo ocorre. Além disso, as pesquisadoras consideraram fatores ambientais importantes, como a quantidade de floresta presente em cada região e o grau de fragmentação da paisagem, ou seja, o quanto a floresta está contínua ou dividida em partes menores e isoladas, geralmente devido ao desmatamento.

Outro ponto central foi diferenciar a cobertura florestal dentro e no entorno dos Territórios Indígenas, permitindo entender como as condições da paisagem ao redor influenciam seus efeitos sobre a saúde humana. Para analisar essas relações, foram utilizados modelos estatísticos capazes de identificar padrões entre ambiente, poluição e doenças ao longo do tempo e do espaço. Para orientar essa análise, as autoras propuseram um conjunto de hipóteses sobre como os Territórios Indígenas, a cobertura florestal e a fragmentação da paisagem podem influenciar a incidência de doenças. O esquema conceitual, apresentado na Figura 1, mostra hipóteses de que esses fatores não atuam isoladamente: seus efeitos podem se somar ou interagir entre si, por exemplo, quando a extensão dos territórios depende do nível de desmatamento ou da qualidade da paisagem ao redor. A partir dessas hipóteses, foram testados diferentes cenários para entender como esses fatores, isolados ou em conjunto, afetam a saúde humana.



Figura 1. Relações entre Territórios Indígenas (TI), fragmentação florestal e cobertura florestal na influência sobre a incidência de doenças. Os blocos superiores representam os principais fatores analisados: Territórios Indígenas (TI), que podem reduzir a incidência de doenças dependendo da qualidade e manejo da floresta; Fragmentação Florestal, que pode tanto favorecer a propagação de doenças (ex.: zoonoses) quanto reduzir doenças relacionadas ao fogo; e Cobertura Florestal, que exerce um efeito estabilizador, sendo associada à redução da incidência de doenças quando mais extensa. Os quadros centrais apresentam as hipóteses de interação (*) entre os fatores: TI +/* Fragmentação: a fragmentação pode modificar o efeito protetor dos territórios indígenas; Cobertura Florestal +/* Fragmentação: a forma como a paisagem está organizada influencia o impacto da cobertura florestal; e TI +/* Floresta fora de TI: a influência conjunta da cobertura florestal dentro e fora dos territórios indígenas. Na parte inferior, a hipótese integrada (TI +/* Fragmentação +/* Floresta fora de TI) sintetiza todos os fatores atuando conjuntamente na determinação da incidência de doenças, com interações dependentes do grau de fragmentação da paisagem. As linhas pontilhadas e os símbolos de adição e asterisco indicam relações adicionais ou interações entre os componentes.


As autoras, Dra. Barreto e Dra. Palmeirim, e colaboradores mostram que territórios indígenas podem reduzir a incidência de doenças associadas à fumaça de queimadas, como problemas respiratórios e cardiovasculares, mas esse efeito depende fortemente do contexto ambiental em que estão inseridos. Em municípios com mais de 45% de cobertura florestal, essas áreas estão associadas à diminuição dos impactos do material particulado fino (PM2.5), um dos principais poluentes responsáveis por internações e mortes prematuras na região. No entanto, essa relação não é simples: em paisagens muito degradadas, com pouca floresta no entorno, a presença de Territórios Indígenas pode não ser suficiente para compensar os impactos das queimadas e, em alguns casos, pode até estar associada a maiores incidências de doenças, um reflexo da pressão ambiental ao redor.

Ao todo, foram analisados mais de 28 milhões de casos de doenças na Amazônia, dos quais cerca de 80% estão relacionados a problemas respiratórios e cardiovasculares ligados à poluição do ar causada por incêndios florestais. Durante esse período, mais de 500 mil km² da Amazônia foram atingidos pelo fogo, com o Brasil concentrando a maior área queimada (Fig. 2, a). Ainda assim, os impactos da poluição ultrapassam fronteiras nacionais, afetando populações a centenas de quilômetros de distância, o que reforça a natureza interconectada do bioma.



Figura 2. Relação entre cobertura florestal, poluição por material particulado fino (PM 2.5) e incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares na Pan-Amazônia. Onde: (a) Distribuição do número de focos de queimadas. As cores variam de tons claros a escuros, indicando a intensidade dos registros: áreas em tons mais claros (verde/amarelo) representam menor quantidade de focos, enquanto áreas em tons mais escuros (laranja/vermelho) indicam maior concentração de queimadas; e (b) Distribuição espacial do desmatamento. As cores representam a ocorrência do fogo e áreas reconhecidas, ou não, como Territórios Indígenas (IT na figura) dentro do bioma Amazônico. Áreas em verde indicam regiões com menor ou nenhuma ocorrência de desmatamento, enquanto tons em um verde mais escuro indicam Territórios Indígenas reconhecidos, enquanto áreas em laranja indicam Territórios Indígenas não reconhecidos. Em vermelho/bordô temos áreas com presença de fogo.  Fonte: Communications Earth & Environment.


A fragmentação da floresta, ou seja, quando áreas contínuas são divididas em partes menores e isoladas, também desempenha um papel central. De modo geral, quanto maior a fragmentação, maior a incidência de doenças. Isso ocorre porque paisagens fragmentadas têm mais áreas de “bordas” entre a floresta e outros ambientes, como rurais ou urbanos, o que aumenta tanto a vulnerabilidade ao fogo quanto o contato entre humanos, animais e vetores de doenças. Esse padrão ajuda a explicar os resultados para doenças zoonóticas e transmitidas por vetores, como a leishmaniose. Nos casos da leishmaniose e outras doenças, como a malária, os efeitos são ainda mais complexos. Em áreas altamente fragmentadas, o risco dessas doenças tende a aumentar. Por outro lado, quando a cobertura florestal, dentro e fora dos Territórios Indígenas, ultrapassa cerca de 40% do território municipal, esses riscos podem ser reduzidos. Ainda assim, os resultados variam conforme a combinação entre floresta, fragmentação e extensão dos territórios (Fig. 3).



Figura 3. Efeito da extensão dos Territórios Indígenas sobre a incidência de doenças em função da estrutura da paisagem no entorno. Em cenários com alta cobertura florestal no entorno (≈75%) e baixa fragmentação, o aumento da extensão dos Territórios Indígenas está associado à redução da incidência de doenças relacionadas ao fogo, possivelmente devido à menor emissão e maior absorção de poluentes atmosféricos. Em contraste, em paisagens com baixa cobertura florestal no entorno (≈15%), a relação com doenças zoonóticas e transmitidas por vetores torna-se não linear, refletindo a maior complexidade ecológica associada à fragmentação e às interações entre humanos, fauna e vetores. Esses resultados indicam que os efeitos dos Territórios Indígenas sobre a saúde humana dependem fortemente do contexto da paisagem, especialmente da cobertura florestal e da densidade de borda fora de seus limites.


Outro resultado importante diz respeito ao status jurídico dos Territórios Indígenas. Territórios indígenas oficialmente reconhecidos tendem a estar associados a menores níveis de doenças, especialmente aquelas relacionadas a queimadas (Fig. 2, b). Já as áreas sem reconhecimento legal apresentam maior incidência de doenças, o que, segundo as autoras, está ligado a maiores taxas de desmatamento, fogo e degradação ambiental.

Além disso, os resultados indicam que o reconhecimento legal fortalece a capacidade desses territórios de manter a integridade ambiental ao longo do tempo, reduzindo pressões externas como exploração ilegal de recursos e expansão agropecuária. Esse cenário contribui para a conservação de grandes áreas contínuas de floresta, essenciais para a regulação do clima local, a melhoria da qualidade do ar e a diminuição da exposição humana a poluentes e agentes infecciosos. Dessa forma, não apenas legitima os direitos territoriais dos povos indígenas, mas potencializa os benefícios ecológicos e sanitários dessas áreas, evidenciando que a segurança jurídica é um fator-chave para a efetividade dos Territórios Indígenas como aliados na promoção da saúde humana na Amazônia.

Segundo as autoras, a proteção dos direitos territoriais indígenas não é apenas uma questão de justiça social ou conservação ambiental, mas também uma estratégia concreta de saúde pública. Ao manter grandes áreas de floresta preservadas, esses territórios ajudam a reduzir a poluição do ar, limitar a propagação de incêndios e manter o serviço ecossistêmico de regulação de doenças promovido pelas florestas. As autoras destacam, no entanto, que os resultados devem ser interpretados com cautela. Diferenças na qualidade dos dados de saúde entre países, possíveis subnotificações e a influência de outros fatores, como condições socioeconômicas e estilo de vida,  também afetam a incidência de doenças. Ainda assim, o estudo reforça que políticas públicas voltadas à demarcação e proteção efetiva dos Territórios Indígenas, à redução do desmatamento e ao controle da fragmentação florestal podem gerar benefícios diretos à saúde humana. Mais do que isso, indicam que conservar florestas sob gestão indígena é uma solução baseada na natureza com múltiplos ganhos: ambientais, climáticos, sociais e sanitários.


Conteúdo: Priscila Mateus Couto 

Revisão: Stefany Lopes e Juliana Ciccheto

Revisão final: Ana Paula Lula CostaEditora desta edição: Daiana Reis




Saiba mais



Sobre as autoras:

Julia Barreto é uma pesquisadora focada nos impactos das mudanças humanas em ecossistemas tropicais sobre a biodiversidade e processos ecológicos, com abordagem aplicada à conservação. Atua atualmente com projetos de Conservação e Saúde Única (One Health). Possui doutorado em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa na Mata Atlântica, mestrado em Ecologia Aplicada sobre herbivoria na Amazônia e graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Suas áreas de atuação incluem biodiversidade, perda de habitat, ecologia de paisagens, ecologia aplicada e ciência de dados. 

Ana Palmeirim possui graduação e mestrado em biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua na área de Ecologia de Paisagens, com foco nos efeitos da perda e fragmentação de habitats. Realizou três pós-doutorados (Brasil, China e Reino Unido), nos quais pesquisou  os impactos ambientais em diferentes ecossistemas e interações entre espécies. Atualmente, participa de um projeto europeu que desenvolve pesquisas e ações de formação em países africanos de língua portuguesa. 


Um estudo de 2019 já previa: serviços ecossistêmicos podem impulsionar a economia brasileira, mas isso depende de ações imediatas de restauração. 


Por: Hieza Schleweis


Faça o download deste Press Release clicando aqui


No cenário pós-COP30, o Brasil busca acelerar o cumprimento de suas metas climáticas e avança na implementação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG), que foi revisado para internalizar os desafios e oportunidades atuais, desenvolvendo estratégias transversais: o PLANAVEG 2025-2028 (Fig. 1). Nesse contexto, destaca-se um estudo publicado em 2019 e liderado pela Dra. Mercedes Bustamante, um documento estratégico que discute os principais desafios da restauração de ecossistemas no âmbito da proteção da biodiversidade e da mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Esses desafios devem ser considerados para recuperar milhões de hectares degradados. A pesquisa demonstra que a restauração ecológica em larga escala é uma das ferramentas mais viáveis e eficazes para contribuir com o sequestro de carbono (processo pelo qual a vegetação retira dióxido de carbono (CO₂)) e para enfrentar a crise climática. Além de fortalecer a segurança hídrica e restabelecer outros serviços ecossistêmicos, como a regulação do clima, a proteção do solo, a polinização e a manutenção da qualidade da água, benefícios naturais que sustentam atividades econômicas e o bem-estar humano.


Figura 1. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG) estabelece diretrizes e metas para restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2028, transformando áreas degradadas em paisagens produtivas e ambientalmente resilientes, ou seja, ecossistemas capazes de resistir a impactos ambientais e de recuperar suas funções ao longo do tempo. A iniciativa busca ampliar a recuperação de ecossistemas e fortalecer o papel do Brasil como líder global em soluções baseadas na natureza. Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).


O artigo intitulado “Restauração ecológica como uma estratégia para mitigação e adaptação às mudanças climáticas: lições e desafios do Brasil” (do inglês: Ecological restoration as a strategy for mitigating and adapting to climate change: lessons and challenges from Brazil), analisou como a recuperação de ecossistemas nativos poderia posicionar o Brasil como protagonista no cumprimento do Acordo de Paris, um tratado climático global adotado em 2015, no qual países se comprometeram a reduzir emissões de gases de efeito estufa, como o CO₂, e limitar o aquecimento do planeta. Mesmo escrito há sete anos, o estudo já apontava que essa liderança brasileira poderia ir além do combate ao desmatamento. Os autores destacam uma das metas ambiciosas deste acordo, alinhada aos compromissos climáticos do país: restaurar 12 milhões de hectares de florestas, ampliando a captura de carbono, recuperando ecossistemas degradados e fortalecendo a adaptação às mudanças climáticas.

Na prática, a restauração ecológica consiste no conjunto de ações destinadas a auxiliar na recuperação de ecossistemas degradados, com o objetivo de restabelecer sua estrutura, funcionamento e biodiversidade (Fig. 2). Para alcançar esse resultado, diferentes estratégias podem ser empregadas. Entre elas estão o plantio de mudas, que envolve a introdução de espécies nativas produzidas em viveiros; a semeadura direta, técnica em que sementes de plantas nativas são lançadas no solo para iniciar a regeneração da vegetação; e a regeneração natural, processo no qual a área degradada é protegida e a degradação é interrompida, permitindo que o ecossistema se recupere gradualmente por seus próprios processos naturais. O estudo liderado por Mercedes Bustamante destaca que a escolha entre esses métodos deve ser feita de forma criteriosa. A estratégia mais adequada depende, principalmente, do grau de degradação da área, das condições climáticas regionais e da disponibilidade de espécies nativas capazes de restabelecer o funcionamento do ecossistema.


Figura 2. Roda da Recuperação Ecológica, ferramenta utilizada para visualizar o progresso da restauração por meio da comparação entre os atributos do ecossistema em recuperação e os esperados em um modelo de referência, isto é, um ecossistema considerado saudável ou pouco degradado, utilizado como parâmetro de comparação. Cada segmento do gráfico representa atributos ecológicos, como a biodiversidade, a estrutura da vegetação e o funcionamento do ecossistema. A primeira roda mostra a linha de base do projeto, que corresponde à condição inicial da área avaliada no início da restauração. A segunda roda representa a situação de um projeto após 10 anos de restauração, indicando o avanço na recuperação dos diferentes atributos ecológicos. Fonte: GANN, G. D. et al., 2019. Tradução: Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), 2019. 


Além dos benefícios ambientais diretos, a restauração ecológica também pode gerar impactos relevantes na economia. Um dos principais exemplos é a geração de empregos, já que a recuperação de ecossistemas cria uma nova cadeia produtiva. Essa cadeia envolve diversas etapas, como a coleta de sementes de espécies nativas, a produção de mudas em viveiros, o plantio e a manutenção da vegetação, além do monitoramento e da gestão das áreas restauradas ao longo do tempo. Em termos fiscais, o estudo aponta que esse conjunto de atividades pode movimentar grandes volumes de recursos e gerar bilhões de dólares em arrecadação de impostos. No entanto, o sucesso dessa estratégia depende da integração entre políticas públicas, financiamento e participação do setor privado.

O trabalho também chama atenção para um risco comum em iniciativas de restauração: o chamado aflorestamento (afforestation, em inglês), que ocorre quando florestas são plantadas em áreas que originalmente não eram florestais. Esse é o caso de partes do Cerrado e do Pampa, biomas que apresentam grandes extensões de campos naturais e de savanas. A introdução de grande quantidade de árvores nesses ambientes pode gerar impactos negativos, como a redução da disponibilidade de água em bacias hidrográficas, que em alguns casos pode chegar a até 40%. Por isso, os autores destacam que projetos de restauração precisam respeitar a identidade ecológica de cada ecossistema, evitando a ideia simplista de que restaurar significa apenas plantar árvores. O planejamento deve ser orientado por dados científicos e considerar múltiplos objetivos, conciliando metas de sequestro de carbono com a preservação do ciclo natural da água.

Mais do que mitigar impactos ambientais e reforçar a segurança hídrica, ações de restauração conduzidas com rigor técnico podem transformar milhões de hectares degradados em áreas produtivas e ambientalmente recuperadas. Em 2019, estimava-se que o Brasil possuía um déficit de cerca de 21 milhões de hectares de florestas e de campos degradados, principalmente em propriedades privadas. Em 2026, déficit ambiental pode ser interpretado como uma oportunidade econômica, capaz de movimentar setores produtivos e gerar empregos enquanto restabelece serviços ecossistêmicos, benefícios naturais fornecidos pelos ecossistemas.

A viabilidade econômica desse tipo de iniciativa já foi observada em outros países. Na Coreia do Sul, por exemplo, o valor monetário dos serviços prestados por florestas restauradas foi estimado em cerca de US$ 92 bilhões, o equivalente a aproximadamente 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Segundo o levantamento, os maiores retornos econômicos estão associados aos benefícios relacionados à água, ao sequestro de carbono e à melhoria da qualidade do ar (Fig. 3).

O Brasil também possui exemplos históricos de sucesso. Um deles é o reflorestamento da Floresta da Tijuca, no século XIX, realizado para recuperar nascentes e garantir o abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro, que havia sido comprometido pela expansão de lavouras de café. Outro exemplo é o reflorestamento realizado na região da Itaipu Binacional, nas margens do reservatório da usina hidrelétrica, com o objetivo de proteger o solo e evitar o acúmulo de sedimentos nos corpos d’água. Esses casos mostram que, quando bem planejada, a restauração ecológica pode gerar benefícios simultâneos para o meio ambiente, a economia e a sociedade.


Figura 3. Estimativa do valor monetário dos serviços ecossistêmicos prestados por florestas restauradas na Coreia do Sul (Korean Forest Service, KFS, 2013). A tabela apresenta os benefícios econômicos associados a diferentes serviços prestados por esses ecossistemas, como regulação e fornecimento de água, sequestro de carbono, purificação do ar, conservação do solo e outros processos naturais que contribuem para o bem-estar humano e para a economia. Esses valores representam uma estimativa do retorno financeiro gerado pela restauração florestal no país. Fonte: Bustamante et al. (2019), adaptado da Tabela 1 do artigo sobre os benefícios monetários dos serviços ecossistêmicos.


Os autores concluem o trabalho apresentando estimativas robustas sobre o potencial econômico da restauração ecológica. Segundo o estudo, o cumprimento da meta brasileira de restaurar 12 milhões de hectares de áreas degradadas poderia gerar cerca de 215 mil novos empregos diretos no setor, além de uma arrecadação estimada em US$ 1,7 bilhão em impostos. Esses números indicam que a restauração ecológica não é apenas uma estratégia ambiental, mas também uma atividade capaz de gerar valor econômico e integrar cadeias produtivas. Diante da urgência da crise climática e dos compromissos assumidos na COP30, o estudo liderado pela Dra. Bustamante permanece atual e pode servir como uma importante referência para orientar iniciativas de restauração em larga escala no Brasil. A principal mensagem é nítida: o enfrentamento das mudanças climáticas e a construção de um futuro mais resiliente passam por políticas e projetos de restauração ecológica bem planejados, capazes de alinhar a recuperação ambiental, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.


Conteúdo: Hieza Schleweis 

Revisão: Isis Gonçalves, Juliana Ciccheto e Priscila Mateus Couto

Revisão final: Mariana Silva Ferreira

Editora desta edição: Daiana Reis e Juliana Ciccheto



Saiba mais



Sobre a autora:

Mercedes Bustamante é Professora Titular da Universidade de Brasília (UnB) e uma das principais autoridades globais em Ecologia de Ecossistemas, com foco no bioma Cerrado, na biogeoquímica e nas mudanças climáticas. Bióloga (UERJ), mestre em Fisiologia Vegetal (UFV) e doutora em Geobotânica (Universität Trier, Alemanha), sua trajetória é marcada pela liderança em painéis internacionais de alto nível, tendo atuado como cocordenadora no IPCC (Relatórios 5 e 6) e como membro do IPBES e do PNUMA. Na gestão pública e científica, presidiu a CAPES em 2023 e ocupou cargos diretivos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). É membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Ciências dos EUA (NAS) e do Climate Crisis Advisory Group. Reconhecida por suas contribuições à ciência e ao meio ambiente, foi laureada com o Prêmio Claudia (2007) e com o Prêmio Verde das Américas (2009).


bottom of page