Conservar a natureza sem pessoas? Estudo mostra que essa ideia está errada
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Povos indígenas e comunidades locais ajudam a conservar a biodiversidade por meio do manejo sustentável de espécies e da proteção de territórios.
Por: Ana Luiza Epifanio de Souza
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A conservação da biodiversidade tem sido tradicionalmente baseada na ideia de manter a natureza protegida da ação humana, priorizando os ambientes o mais intactos possível. No entanto, um estudo recente, publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution, propõe uma mudança importante nessa perspectiva. A Dra. Carolina Levis e demais colaboradores analisaram evidências científicas e estudos de caso na América do Sul e concluíram que Povos Indígenas (PI) e Comunidades Locais (CL) desempenham um papel fundamental na conservação da biodiversidade. Ao manejar espécies, prática que envolve técnicas e conhecimentos utilizados para cultivar, domesticar, proteger, selecionar e utilizar plantas e animais de forma sustentável, modificar paisagens e proteger seus territórios ao longo de milhares de anos, esses grupos contribuem diretamente para a manutenção da natureza.
A relação entre seres humanos e natureza nem sempre foi de degradação. Durante muito tempo, políticas de conservação consideraram que os ecossistemas mais preservados seriam aqueles sem presença humana. No entanto, evidências científicas indicam que muitos ambientes considerados “intactos”, como partes da Amazônia, foram historicamente moldados por populações humanas. Povos indígenas desenvolveram práticas de manejo que aumentam a diversidade de espécies, como a domesticação de plantas, o uso controlado do fogo e a criação de paisagens chamadas de “florestas culturais” (Fig. 1).
Como destacam os autores, “os sistemas socioecológicos resultam de interações e retroalimentações entre biodiversidade e diversidade biocultural”, o que reforça que a natureza e a sociedade não podem ser tratadas separadamente. Dessa forma, integrar conhecimentos tradicionais com ciência moderna pode gerar soluções mais eficazes para enfrentar a crise ambiental global.

Figura 1. Povos indígenas manejam espécies e territórios há milhares de anos, contribuindo para a manutenção da biodiversidade e para a conservação de ecossistemas amazônicos. Fonte: Instituto Socioambiental (ISA) e Articulação Nacional de Agroecologia.
Segundo os autores, ignorar a relação entre a natureza e a espécie humana pode ter consequências graves: “suprimir as interconexões entre diversidade cultural e biodiversidade pode levar à perda de ambos”. Diante disso, o estudo levanta uma questão central: é possível conservar a biodiversidade ignorando o papel das culturas humanas?
Para responder a essa pergunta, os pesquisadores analisaram a literatura científica e reuniram estudos de caso conhecidos como pontos de esperança socioecológicos “Social–ecological hope spots”, definidos pelos autores como iniciativas promissoras de conservação que integram biodiversidade, conhecimentos tradicionais e bem-estar humano, mostrando como povos indígenas e comunidades locais podem contribuir para a proteção dos ecossistemas e para a construção de sistemas mais sustentáveis (Fig. 2). Esses exemplos mostram situações reais em que a conservação da biodiversidade está associada ao bem-estar humano. Um dos casos analisados ocorre no Alto Xingu, na Amazônia, onde povos indígenas combinam conhecimentos tradicionais com tecnologias modernas para monitorar o território e proteger recursos naturais (Fig. 2, ponto 1). Outro exemplo é o manejo do pirarucu (Arapaima gigas), no qual comunidades locais participam da contagem dos peixes e definem regras de pesca sustentáveis, o que levou à recuperação das populações da espécie (Fig. 2, ponto 2).

Figura 2. Variação da diversidade biocultural na América do Sul, com a localização de pontos de esperança socioecológica (“social–ecological hope spots”) consolidados e promissores. O mapa mostra a variação espacial na riqueza (número de espécies) de vertebrados terrestres (gradiente de cor cinza) e na riqueza (número de línguas) linguística (gradiente de cor roxa) na América do Sul. (1) Ponto de esperança no Território Indígena do Xingu, floresta de transição sul da Amazônia; (2) Cogestão do peixe pirarucu em ecossistemas de água doce, Amazônia central; (3) Turismo arqueológico e ecológico do patrimônio natural-cultural no Parque Nacional da Serra da Capivara, floresta sazonalmente seca da Caatinga; (4) Manejo indígena do fogo no Território Indígena Xavante, Cerrado; e (5) Cogestão de espécies culturalmente importantes em Florestas de Araucáriana Mata Atlântica meridional. Fonte: Levis et al. (2022).
Como ressaltam os autores, essas iniciativas mostram que o engajamento de povos indígenas e comunidades locais pode ser a melhor esperança para a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas. Esses resultados demonstram que a participação ativa das comunidades locais pode gerar benefícios ecológicos e sociais ao mesmo tempo. Dessa forma, os impactos desse estudo vão além da ciência. Os autores destacam que incluir povos indígenas e comunidades locais nas políticas de conservação pode melhorar a gestão dos recursos naturais, reduzir conflitos socioambientais e fortalecer a sustentabilidade, como no caso do manejo do pirarucu (Fig. 3). Além disso, essa abordagem contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à proteção da vida terrestre, redução das desigualdades e promoção de sociedades mais justas.
Como Levis e colaboradores afirmam, “ecossistemas saudáveis são a base da existência dos povos indígenas”, uma perspectiva da qual as sociedades modernas ainda têm muito a aprender. Diante disso, o estudo aponta a necessidade de uma mudança de paradigma: conservar a biodiversidade não significa excluir as pessoas, mas sim reconhecer e integrar seus conhecimentos, práticas e direitos. Para os autores, a ciência pode contribuir nesse processo ao promover o diálogo entre conhecimentos científicos e saberes indígenas e tradicionais, valorizando diferentes formas de compreender, manejar e conservar a natureza na construção de estratégias mais justas, inclusivas e sustentáveis de conservação ambiental.

Figura 3. O manejo comunitário do pirarucu (Arapaima gigas) na Amazônia tem contribuído para a recuperação da espécie e para a geração de renda em comunidades locais. Fonte: Instituto Mamirauá e Brasil de Fato (2022).
Conteúdo: Ana L. Epifanio
Revisão: Juliana Ciccheto e Priscila Mateus Couto
Revisão final: Mariana Silva Ferreira
Editora desta edição: Daiana Reis
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Leia o artigo na íntegra: Contributions of human cultures to biodiversity and ecosystem conservation
Sobre a autora: Carolina Levis é bióloga, ecóloga e pesquisadora interdisciplinar com atuação voltada à relação entre povos indígenas, comunidades tradicionais e conservação da biodiversidade amazônica. Graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutorado com dupla titulação entre o INPA e a Wageningen University & Research, na Holanda. Em sua pesquisa, investiga como o manejo indígena e tradicional moldou os ecossistemas amazônicos ao longo do tempo, integrando áreas como Ecologia, Arqueologia, Antropologia e Biogeografia. Atualmente é professora da Universidade Federal de Santa Catarina e colaboradora do INPA, atuando em redes nacionais e internacionais voltadas à sociobiodiversidade e ao diálogo entre conhecimentos indígenas, tradicionais e científicos.



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