top of page

Restauração Ecológica: um caminho rentável para a mitigação das mudanças climáticas

  • 14 de mai.
  • 7 min de leitura

Um estudo de 2019 já previa: serviços ecossistêmicos podem impulsionar a economia brasileira, mas isso depende de ações imediatas de restauração. 


Por: Hieza Schleweis


Faça o download deste Press Release clicando aqui


No cenário pós-COP30, o Brasil busca acelerar o cumprimento de suas metas climáticas e avança na implementação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG), que foi revisado para internalizar os desafios e oportunidades atuais, desenvolvendo estratégias transversais: o PLANAVEG 2025-2028 (Fig. 1). Nesse contexto, destaca-se um estudo publicado em 2019 e liderado pela Dra. Mercedes Bustamante, um documento estratégico que discute os principais desafios da restauração de ecossistemas no âmbito da proteção da biodiversidade e da mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Esses desafios devem ser considerados para recuperar milhões de hectares degradados. A pesquisa demonstra que a restauração ecológica em larga escala é uma das ferramentas mais viáveis e eficazes para contribuir com o sequestro de carbono (processo pelo qual a vegetação retira dióxido de carbono (CO₂)) e para enfrentar a crise climática. Além de fortalecer a segurança hídrica e restabelecer outros serviços ecossistêmicos, como a regulação do clima, a proteção do solo, a polinização e a manutenção da qualidade da água, benefícios naturais que sustentam atividades econômicas e o bem-estar humano.


Figura 1. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG) estabelece diretrizes e metas para restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2028, transformando áreas degradadas em paisagens produtivas e ambientalmente resilientes, ou seja, ecossistemas capazes de resistir a impactos ambientais e de recuperar suas funções ao longo do tempo. A iniciativa busca ampliar a recuperação de ecossistemas e fortalecer o papel do Brasil como líder global em soluções baseadas na natureza. Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).


O artigo intitulado “Restauração ecológica como uma estratégia para mitigação e adaptação às mudanças climáticas: lições e desafios do Brasil” (do inglês: Ecological restoration as a strategy for mitigating and adapting to climate change: lessons and challenges from Brazil), analisou como a recuperação de ecossistemas nativos poderia posicionar o Brasil como protagonista no cumprimento do Acordo de Paris, um tratado climático global adotado em 2015, no qual países se comprometeram a reduzir emissões de gases de efeito estufa, como o CO₂, e limitar o aquecimento do planeta. Mesmo escrito há sete anos, o estudo já apontava que essa liderança brasileira poderia ir além do combate ao desmatamento. Os autores destacam uma das metas ambiciosas deste acordo, alinhada aos compromissos climáticos do país: restaurar 12 milhões de hectares de florestas, ampliando a captura de carbono, recuperando ecossistemas degradados e fortalecendo a adaptação às mudanças climáticas.

Na prática, a restauração ecológica consiste no conjunto de ações destinadas a auxiliar na recuperação de ecossistemas degradados, com o objetivo de restabelecer sua estrutura, funcionamento e biodiversidade (Fig. 2). Para alcançar esse resultado, diferentes estratégias podem ser empregadas. Entre elas estão o plantio de mudas, que envolve a introdução de espécies nativas produzidas em viveiros; a semeadura direta, técnica em que sementes de plantas nativas são lançadas no solo para iniciar a regeneração da vegetação; e a regeneração natural, processo no qual a área degradada é protegida e a degradação é interrompida, permitindo que o ecossistema se recupere gradualmente por seus próprios processos naturais. O estudo liderado por Mercedes Bustamante destaca que a escolha entre esses métodos deve ser feita de forma criteriosa. A estratégia mais adequada depende, principalmente, do grau de degradação da área, das condições climáticas regionais e da disponibilidade de espécies nativas capazes de restabelecer o funcionamento do ecossistema.


Figura 2. Roda da Recuperação Ecológica, ferramenta utilizada para visualizar o progresso da restauração por meio da comparação entre os atributos do ecossistema em recuperação e os esperados em um modelo de referência, isto é, um ecossistema considerado saudável ou pouco degradado, utilizado como parâmetro de comparação. Cada segmento do gráfico representa atributos ecológicos, como a biodiversidade, a estrutura da vegetação e o funcionamento do ecossistema. A primeira roda mostra a linha de base do projeto, que corresponde à condição inicial da área avaliada no início da restauração. A segunda roda representa a situação de um projeto após 10 anos de restauração, indicando o avanço na recuperação dos diferentes atributos ecológicos. Fonte: GANN, G. D. et al., 2019. Tradução: Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), 2019. 


Além dos benefícios ambientais diretos, a restauração ecológica também pode gerar impactos relevantes na economia. Um dos principais exemplos é a geração de empregos, já que a recuperação de ecossistemas cria uma nova cadeia produtiva. Essa cadeia envolve diversas etapas, como a coleta de sementes de espécies nativas, a produção de mudas em viveiros, o plantio e a manutenção da vegetação, além do monitoramento e da gestão das áreas restauradas ao longo do tempo. Em termos fiscais, o estudo aponta que esse conjunto de atividades pode movimentar grandes volumes de recursos e gerar bilhões de dólares em arrecadação de impostos. No entanto, o sucesso dessa estratégia depende da integração entre políticas públicas, financiamento e participação do setor privado.

O trabalho também chama atenção para um risco comum em iniciativas de restauração: o chamado aflorestamento (afforestation, em inglês), que ocorre quando florestas são plantadas em áreas que originalmente não eram florestais. Esse é o caso de partes do Cerrado e do Pampa, biomas que apresentam grandes extensões de campos naturais e de savanas. A introdução de grande quantidade de árvores nesses ambientes pode gerar impactos negativos, como a redução da disponibilidade de água em bacias hidrográficas, que em alguns casos pode chegar a até 40%. Por isso, os autores destacam que projetos de restauração precisam respeitar a identidade ecológica de cada ecossistema, evitando a ideia simplista de que restaurar significa apenas plantar árvores. O planejamento deve ser orientado por dados científicos e considerar múltiplos objetivos, conciliando metas de sequestro de carbono com a preservação do ciclo natural da água.

Mais do que mitigar impactos ambientais e reforçar a segurança hídrica, ações de restauração conduzidas com rigor técnico podem transformar milhões de hectares degradados em áreas produtivas e ambientalmente recuperadas. Em 2019, estimava-se que o Brasil possuía um déficit de cerca de 21 milhões de hectares de florestas e de campos degradados, principalmente em propriedades privadas. Em 2026, déficit ambiental pode ser interpretado como uma oportunidade econômica, capaz de movimentar setores produtivos e gerar empregos enquanto restabelece serviços ecossistêmicos, benefícios naturais fornecidos pelos ecossistemas.

A viabilidade econômica desse tipo de iniciativa já foi observada em outros países. Na Coreia do Sul, por exemplo, o valor monetário dos serviços prestados por florestas restauradas foi estimado em cerca de US$ 92 bilhões, o equivalente a aproximadamente 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Segundo o levantamento, os maiores retornos econômicos estão associados aos benefícios relacionados à água, ao sequestro de carbono e à melhoria da qualidade do ar (Fig. 3).

O Brasil também possui exemplos históricos de sucesso. Um deles é o reflorestamento da Floresta da Tijuca, no século XIX, realizado para recuperar nascentes e garantir o abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro, que havia sido comprometido pela expansão de lavouras de café. Outro exemplo é o reflorestamento realizado na região da Itaipu Binacional, nas margens do reservatório da usina hidrelétrica, com o objetivo de proteger o solo e evitar o acúmulo de sedimentos nos corpos d’água. Esses casos mostram que, quando bem planejada, a restauração ecológica pode gerar benefícios simultâneos para o meio ambiente, a economia e a sociedade.


Figura 3. Estimativa do valor monetário dos serviços ecossistêmicos prestados por florestas restauradas na Coreia do Sul (Korean Forest Service, KFS, 2013). A tabela apresenta os benefícios econômicos associados a diferentes serviços prestados por esses ecossistemas, como regulação e fornecimento de água, sequestro de carbono, purificação do ar, conservação do solo e outros processos naturais que contribuem para o bem-estar humano e para a economia. Esses valores representam uma estimativa do retorno financeiro gerado pela restauração florestal no país. Fonte: Bustamante et al. (2019), adaptado da Tabela 1 do artigo sobre os benefícios monetários dos serviços ecossistêmicos.


Os autores concluem o trabalho apresentando estimativas robustas sobre o potencial econômico da restauração ecológica. Segundo o estudo, o cumprimento da meta brasileira de restaurar 12 milhões de hectares de áreas degradadas poderia gerar cerca de 215 mil novos empregos diretos no setor, além de uma arrecadação estimada em US$ 1,7 bilhão em impostos. Esses números indicam que a restauração ecológica não é apenas uma estratégia ambiental, mas também uma atividade capaz de gerar valor econômico e integrar cadeias produtivas. Diante da urgência da crise climática e dos compromissos assumidos na COP30, o estudo liderado pela Dra. Bustamante permanece atual e pode servir como uma importante referência para orientar iniciativas de restauração em larga escala no Brasil. A principal mensagem é nítida: o enfrentamento das mudanças climáticas e a construção de um futuro mais resiliente passam por políticas e projetos de restauração ecológica bem planejados, capazes de alinhar a recuperação ambiental, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.


Conteúdo: Hieza Schleweis 

Revisão: Isis Gonçalves, Juliana Ciccheto e Priscila Mateus Couto

Revisão final: Mariana Silva Ferreira

Editora desta edição: Daiana Reis e Juliana Ciccheto



Saiba mais



Sobre a autora:

Mercedes Bustamante é Professora Titular da Universidade de Brasília (UnB) e uma das principais autoridades globais em Ecologia de Ecossistemas, com foco no bioma Cerrado, na biogeoquímica e nas mudanças climáticas. Bióloga (UERJ), mestre em Fisiologia Vegetal (UFV) e doutora em Geobotânica (Universität Trier, Alemanha), sua trajetória é marcada pela liderança em painéis internacionais de alto nível, tendo atuado como cocordenadora no IPCC (Relatórios 5 e 6) e como membro do IPBES e do PNUMA. Na gestão pública e científica, presidiu a CAPES em 2023 e ocupou cargos diretivos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). É membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia Nacional de Ciências dos EUA (NAS) e do Climate Crisis Advisory Group. Reconhecida por suas contribuições à ciência e ao meio ambiente, foi laureada com o Prêmio Claudia (2007) e com o Prêmio Verde das Américas (2009).


 
 
 

Comentários


bottom of page