Como o fogo e as inundações transformam as relações entre as espécies do Pantanal
Mudanças nos regimes de inundação e incêndios afetam as interações entre plantas e polinizadores no Pantanal, comprometendo a biodiversidade e o funcionamento ecológico
Por: Hillary Batista do Nascimento
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Em 2026, a pesquisadora Dra. Camila Silveira Souza e seus colaboradores publicaram um estudo sobre como o fogo e as inundações transformam as relações entre plantas e polinizadores no Pantanal. Os resultados mostram que a água pode ter um papel ainda mais importante do que o fogo nessa transformação.
O estudo foi conduzido nas áreas alagadas do Pantanal, no município de Corumbá, Mato Grosso do Sul, Brasil. A região é considerada a maior área alagada contínua do mundo, funcionando como uma área de transição e conexão entre a Amazônia, a Mata Atlântica, o Chaco e o Cerrado. O Pantanal possui duas estações bem definidas: verão quente e úmido (outubro a abril) e inverno seco (maio a setembro). É marcado pela sazonalidade anual de inundações e pela ocorrência cíclica de incêndios que determinam a distribuição das espécies e suas relações ecológicas, processos já afetados pela ação antrópica e por eventos extremos (Fig. 1).

Figura 1. Área de inundação no Pantanal mato-grossense.
Com o intuito de avaliar os efeitos combinados de fogo e inundação nas redes de insetos visitantes florais, os pesquisadores realizaram um experimento comparando três cenários de manejo de fogo: i) áreas sem queimadas desde 2019 (controle), ii) áreas queimadas no início da estação seca (junho de 2022) e iii) queima no meio da estação seca, período em que os incêndios costumam atingir maior intensidade no Pantanal (setembro de 2021), e diferentes níveis de inundação (alta e baixa). Além do fogo, as áreas foram classificadas de acordo com o tempo que permanecem inundadas ao longo do ano. As áreas amostradas variaram entre regiões sob forte influência do rio Paraguai, alagadas por até 270 dias, e áreas ligadas aos rios Miranda e Negro, com cheias mais curtas (30 a 60 dias) (Fig. 2, a e b).

Figura 2. a) Localização da área de estudo; b) distribuição de parcelas amostradas. Tratamentos são representados por círculos de cores diferentes, e o sombreamento do mapa destaca os níveis de intensidade de inundação; c) Fotos das áreas amostradas mostrando áreas de amostragem com vários graus de alagamento e evidências de queima.
A diferença entre essas áreas permitiu aos pesquisadores comparar ambientes que vivem sob regimes de inundação muito distintos. Enquanto algumas regiões passam grande parte do ano cobertas pela água, outras permanecem secas por períodos mais longos. Essa diferença é importante porque a água não modifica apenas a paisagem, ela também determina quais plantas conseguem crescer, quando elas florescem e quais animais encontram alimento e abrigo nesses locais. Assim, os pesquisadores acompanharam as plantas em floração e os animais que visitavam suas flores. Ao longo do estudo, foram registradas 1.438 plantas e aproximadamente 22.400 flores, além dos visitantes que entraram em contato com as estruturas reprodutivas das flores. No total, foram identificadas 263 interações entre 32 espécies de plantas e 47 espécies de animais. Entre os visitantes estavam diferentes grupos de insetos, como moscas, abelhas e formigas (Fig. 3). Algumas espécies visitavam uma grande variedade de plantas, enquanto outras apareciam associadas a um número menor de espécies. Essas diferenças permitiram aos pesquisadores observar como as relações entre plantas e visitantes mudavam de acordo com as condições de fogo e inundação.

Figura 3. Representação de uma interação entre planta e visitante floral.
Com base nas análises, os diferentes cenários de fogo e inundação alteraram a forma como as espécies interagiam entre si. O fogo é um processo natural importante no Pantanal e pode transformar a vegetação, modificando também os recursos disponíveis para os animais e, consequentemente, as relações entre plantas e visitantes florais. De modo geral, as áreas queimadas no início da estação seca e aquelas sujeitas a períodos mais curtos de inundação apresentaram relações mais específicas entre plantas e visitantes florais, com algumas espécies interagindo de forma mais restrita entre si.
No entanto, os resultados mostraram que a duração das inundações teve uma influência ainda maior do que a do fogo sobre essas relações. As diferenças observadas entre áreas que permanecem alagadas por períodos distintos foram mais marcantes do que aquelas encontradas entre áreas queimadas em diferentes momentos. Isso indica que o tempo que uma área permanece sob a água pode ser um dos principais fatores que determinam quais espécies conseguem viver naquele ambiente e com quais outras espécies elas conseguem interagir.
Além disso, os pesquisadores identificaram que as áreas sujeitas a inundações mais prolongadas apresentaram relações mais amplas entre plantas e visitantes florais. Nesses ambientes, os animais visitavam diferentes espécies de plantas, enquanto as plantas também recebiam visitantes variados. Em contrapartida, nas áreas que permanecem alagadas por menos tempo, as relações tenderam a ser mais específicas, com determinadas plantas e visitantes apresentando associações mais frequentes entre si.
O estudo também revelou que o fogo não atua de forma isolada. Seus efeitos dependem das características do ambiente onde a queimada ocorre e, principalmente, das condições de inundação de cada região do Pantanal. Assim, uma mesma alteração na vegetação provocada pelo fogo pode ter consequências diferentes em áreas que permanecem alagadas por períodos distintos.
Esses resultados são especialmente importantes porque mudanças no regime de inundação podem afetar muito mais do que a quantidade de água presente na paisagem. Alterações no período e na duração das cheias podem modificar a vegetação, a época em que algumas plantas florescem e a disponibilidade de recursos utilizados pelos visitantes florais. Como consequência, também podem mudar as oportunidades de encontro e interação entre plantas e animais.
Essa preocupação se torna ainda mais relevante diante das pressões que o Pantanal enfrenta atualmente, incluindo alterações no funcionamento dos rios, construção de barragens, mudanças climáticas e o aumento da ocorrência de eventos extremos, como secas severas, incêndios e enchentes. Quando o ciclo natural de cheias e secas é alterado, as espécies podem passar a encontrar condições diferentes daquelas às quais estão adaptadas, modificando não apenas sua distribuição, mas também suas relações com outras espécies.
Segundo os autores, a conservação do Pantanal depende da manutenção de seu regime natural de cheias, pois as inundações são fundamentais para organizar as condições ambientais em que diferentes espécies vivem e interagem. A pesquisa também reforça a importância de estratégias de manejo do fogo que considerem as características de cada ambiente e do monitoramento de espécies introduzidas, como a abelha Apis mellifera, que apresentou elevada frequência nas interações observadas.
Por fim, o estudo evidencia que fogo e inundação não devem ser compreendidos como processos independentes. Ambos fazem parte da dinâmica natural do Pantanal e, juntos, ajudam a determinar a vegetação, a distribuição das espécies e as relações que estabelecem entre si. Compreender como esses processos se combinam é fundamental para preservar não apenas a diversidade de espécies do Pantanal, mas também as relações ecológicas que sustentam o funcionamento de um dos maiores sistemas úmidos do planeta.
Conteúdo: Hillary Nascimento
Revisão: Juliana Ciccheto e Daiana Reis
Revisão final: Ana Paula Lula Costa
Editora desta edição: Daiana Reis
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Leia o artigo na íntegra:
Sobre a autora:
Camila Silveira Souza é pesquisadora de pós-doutorado, com bolsa da FAPEMIG, na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), vinculada ao Programa de Botânica Aplicada. Desenvolve pesquisas principalmente na área de interações entre plantas e polinizadores. Atualmente é pesquisadora de Pós-Doutorado (FAPEMIG) e Professora na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), no programa de Botânica Aplicada.



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