Em paisagens agrícolas contínuas, as pragas podem se espalhar com muito mais facilidade, enquanto o aumento das coberturas florestais funciona como uma barreira natural que freia e reduz a disseminação de pragas.
Por: Juliana Ciccheto
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Vivemos um momento de forte expansão agrícola, aumento de pragas invasoras, espécies que se espalham rapidamente nas áreas de cultivo, encontram poucas dificuldades para se estabelecerem e acabam causando grandes prejuízos à produção, e também de urgência em reduzir o uso de pesticidas e agrotóxicos. Sabemos que as monoculturas, ou seja, grandes áreas agrícolas formadas por apenas uma única espécie de planta, como as plantações de soja, favorecem surtos de pragas e geram perdas nas colheitas. Em contraste, paisagens mais diversas tendem a ser mais resistentes às perturbações no ambiente, como mudanças causadas pelo uso intenso da terra, pelo desmatamento, pelas alterações no clima ou pelo manejo agrícola inadequado, fatores que desequilibram os sistemas naturais. Essa diversidade ambiental pode reduzir os prejuízos na produção e o custo econômico com o controle de pragas. No contexto da segurança alimentar, do desmatamento e da conservação ambiental, é importante compreendermos como as pragas se reproduzem e são transmitidas entre cultivos. Isso nos remete a uma pergunta essencial: “por onde as pragas realmente se deslocam dentro das áreas ou chamadas paisagens agrícolas?” E foi essa questão que motivou a pesquisadora Dra. Débora Rother e colaboradores a desenvolverem uma pesquisa sobre o tema.
O grupo de pesquisa analisou qual distância a broca-da-cana-de-açúcar, uma pequena mariposa que causa grandes prejuízos em plantações, consegue se deslocar em uma paisagem de cana no interior de São Paulo, em uma região que fica entre dois biomas muito importantes do Brasil: a Mata Atlântica e o Cerrado. A região estudada é típica das áreas canavieiras do país, isto é, apresenta grandes faixas de plantio contínuo (monoculturas) cortadas por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada (Figura 1). Essas áreas de floresta, muitas vezes vistas apenas como restos ou “sobras” da paisagem, revelaram um papel estratégico: elas podem interromper rotas de dispersão da praga, funcionando como barreiras naturais e sustentáveis.

Figura 1. Imagem ilustrativa de sistemas agrícolas de cana-de-açúcar entrecortados por fragmentos de vegetação nativa ou restaurada. A imagem não retrata a área de estudo; refere-se à área da Usina Nova Canabrava, localizada no Estado do Rio de Janeiro. Fonte: <https://revistarpanews.com.br/cana-de-acucar-no-estado-do-rio-de-janeiro-volta-a-crescer/>.
Usando ferramentas da ciência das redes (as mesmas usadas para entender como informações circulam na internet ou como vírus se espalham entre pessoas), Rother e pesquisadores descobriram que as pragas não se movimentam só de um campo para o outro de forma direta, elas seguem caminhos complexos, com conexões indiretas que só podem ser reveladas quando se analisa a paisagem como um sistema interligado. A mariposa estudada pela pesquisadora brasileira possui larvas que perfuram o caule da cana-de-açúcar, causando danos que reduzem a produção de açúcar, álcool e biomassa, gerando grandes prejuízos econômicos. O ciclo de vida dessa praga da cana-de-açúcar acontece quase todo dentro da própria planta. Os insetos adultos vivem poucos dias e costumam voar principalmente à noite. Os machos conseguem se deslocar por distâncias de até 800 metros, orientando-se pelo cheiro liberado pelas fêmeas. (Figura 2).

Figura 2. Esquema gráfico do ciclo de vida da praga da broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis (Lepidoptera: Crambidae)). Fonte: Imagem criada pela revisora Maria Elizabeth Barbosa.
Para a elaboração da sua pesquisa, a Dra. Rother e seus colaboradores construíram armadilhas com feromônios (substâncias químicas secretadas por um organismo que afetam o comportamento ou a fisiologia de indivíduos da mesma espécie) de fêmeas que atraiam os machos, registrando a presença ou ausência de machos em diferentes pontos de coleta. E aqui os pesquisadores partiram de uma hipótese central: áreas de floresta dificultam o deslocamento da praga. Isso porque as florestas abrigam mais inimigos naturais da broca, como formigas e aves, e a praga tende a evitar esses ambientes por risco de predação.
Para validar a hipótese, Rother e colaboradores mapearam toda a cobertura florestal da região com o uso de imagens de satélite. A partir daí, criaram 50 cenários com simulação computacional, variando a quantidade de floresta: de paisagens quase sem floresta a paisagens quase totalmente florestadas (Figura 3).

Figura 3. Cenários que ilustram a complexidade da paisagem variando a cobertura florestal natural e restaurada no nordeste do estado de São Paulo, Brasil. a) Paisagem empírica com 16,7% de cobertura florestal; b) Desmatamento simulado com 6,3% de cobertura florestal; e c) Reflorestamento simulado com 36,8% de cobertura florestal. A cobertura florestal é representada em verde e os pontos de amostragem (locais de armadilhas e nós na rede espacial) em vermelho. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 2.
Essas simulações representaram cenários de desmatamento extremo e de restauração florestal intensa. Para entender como a praga se move, os pesquisadores transformaram a paisagem em um tipo de rede de caminhos possíveis: cada armadilha virou um ponto da rede (exemplificação na Figura 4). Em um cenário sem floresta, todos os pontos estariam conectados diretamente, como se a praga pudesse voar em linha reta para qualquer lugar (Figura 4, a). Quando havia florestas entre dois pontos, o caminho ficava mais longo, pois a praga teria que “contornar” essas áreas (Figura 4, b). Em alguns casos, áreas cercadas por floresta ficavam completamente isoladas, impedindo a chegada da praga (Figura 4, c). Assim, cada cenário de floresta gerava uma rede diferente, com caminhos mais curtos, mais longos ou até mesmo inexistentes. Para comparar essas redes, os pesquisadores usaram duas ideias simples: distância média entre os pontos, ou seja, quanto maior essa distância, mais difícil é para a praga se espalhar rapidamente; e número de grupos isolados, ou seja, se a paisagem se fragmenta em “ilhas” desconectadas, a praga não consegue alcançar todos os locais. Com essas redes em mãos, os cientistas rodaram simulações computadorizadas para ver como a infestação evoluiria ao longo do tempo. O objetivo era ver: quão rápido a praga se espalhava; quantos pontos acabavam infestados; e se a floresta conseguia atrasar ou até impedir a transmissão.

Figura 4. Diagrama conceitual representando a rede espacial em três paisagens hipotéticas com diferentes níveis de complexidade: a) sem floresta: rede totalmente conectada; b) com cobertura florestal existente: rede conectada, mas com variação na distância original entre os nós; e c) com cobertura florestal aumentada: rede desconectada. No diagrama, foi assumido um nó inicial para a dispersão da mariposa. A espessura do caminho de dispersão da mariposa representa o efeito da distância entre os nós. A imagem foi adaptada do artigo original, Figure 3.
Os resultados mostram algo muito claro: quanto mais floresta existe na paisagem, mais difícil fica para a praga se espalhar. Quando os pesquisadores aumentaram a quantidade de floresta nos cenários simulados, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: os caminhos entre os pontos de infestação ficaram mais longos e a paisagem começou a se quebrar em áreas isoladas, onde a praga simplesmente não conseguia chegar. E isso não aconteceu de forma gradual ou “linear”. O efeito foi exponencial, ou seja, pouca floresta faz pouca diferença; muita floresta faz uma diferença enorme. No cenário real, com pouca cobertura florestal, a paisagem ainda se comporta como um espaço contínuo, permitindo que a praga se espalhe livremente. À medida que a floresta aumenta, porém, ocorre uma mudança estrutural importante: a paisagem começa a se fragmentar, formando blocos isolados. A partir desse ponto, novos incrementos de floresta passam a ter efeitos cada vez mais fortes, deixando grandes áreas fora do alcance da praga ao longo do tempo.
As simulações indicam que a floresta não apenas retarda a infestação da mairoposa broca, mas pode efetivamente limitá-la. Embora o avanço da praga se torne mais lento, o efeito mais relevante é a redução do número de áreas atingidas. Em paisagens mais florestadas, a infestação deixa de ocorrer de maneira homogênea: enquanto alguns locais são atingidos rapidamente, outros demoram muito mais ou nunca chegam a ser infestados. Isso acontece porque a floresta bloqueia múltiplos caminhos ao mesmo tempo, dificultando a dispersão em várias direções. O estudo também mostra que é possível prever com boa precisão por onde a praga tende a se espalhar, mesmo usando poucas informações sobre a paisagem.
A pesquisa da Dra. Rother reforça que o controle de pragas não depende apenas do uso de inseticidas ou da introdução de pragas invasoras, mas também da forma como a paisagem é organizada. Paisagens simplificadas, dominadas por monoculturas, funcionam como verdadeiras autoestradas para pragas especializadas, enquanto paisagens mais diversas, com florestas e áreas naturais, se comportam como labirintos que dificultam o avanço e reduzem o alcance das infestações. Isso demonstra que o risco de infestação depende da estrutura completa das conexões na paisagem.
Conteúdo: Juliana Ciccheto
Revisão: Stefany Lopes e Maria Elizabeth Barbosa
Revisão final: Ana Paula Lula
Editora desta edição: Juliana Ciccheto
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